


O NDIO AFONSO







BERNARDO GUIMARES

Organizao, apresentao e notas por Leopoldo Comitti








ASSOCIAO ACERVOS LITERRIOS
BIBLIOTECA VIRTUAL
2005
O ndio Afonso: do tipo brasileiro ao picaresco


        Da fico de Bernardo Guimares, talvez a obra que mais se aproxime das narrativas orais, ouvidas em suas andanas pelos sertes de Minas Gerais Gois, seja 
O ndio Afonso. 
        J em seu prefcio e no primeiro captulo podemos perceber a necessidade de se reafirmar o relato como referenciado em fatos reais, no apenas como mais 
um dos recursos romnticos utilizados para assegurar certa verossimilhana, mas como uma tentativa de conferir alguma fidedignidade quilo que se narra. 
        Note-se que, mesmo ao sugerir uma amena conversa com as possveis "leitoras", no procura diluir de forma alguma  crueza um tanto naturalista com que esboa 
seu protagonista. Apenas, ironicamente, pede desculpas por no imprimir ao romance um tom mais aprazvel e delicado. Impedem-no disso as circunstncias; ou seja, 
a autenticidade dos fatos e o registro da existncia de um foragido da justia de Gois denominado Afonso.
        Certamente, o leitor contemporneo no ver com estranheza Bernardo Guimares, logo em seguida admitir ter criado personagens adicionais, ou mesmo ter colorido 
com as tintas da imaginao os episdios que se seguem  vingana brutal do protagonista. A ironia do prefcio, ao contrapor as costumeiras leituras sentimentais 
da Corte s rudes histrias do serto j nos advertem para que as cenas mais cruas possuem a funo de sublinhar sua insatisfao frente aos folhetins excessivamente 
edulcorados, s tramas por demasiado urbanas, ou aos sertes retocados criativamente por abstraes poticas, pouco prximas da realidade de um Brasil sequer entrevisto 
pelos intelectuais do Rio de Janeiro.
        J em outras obras o autor havia delegado a seus narradores, ou mesmo a personagens, a palavra ferina em menosprezo a uma sociedade pretensamente cosmopolita, 
mas que se comprazia em cultivar um nacionalismo artificialmente forjado nas imagens idealizadas do ndio e da natureza. Tambm em suas crticas a Os Timbiras (1858), 
deixava entrever a necessidade de se conhecer os hbitos e costumes de uma populao brasileira distanciada dos centros urbanos e j desenvolvendo uma cultura prpria, 
adquirida pela adaptao s condies locais precrias em que viviam e pela constante miscigenao. Porm, nos trs artigos em que analisa o poema de Gonalves Dias, 
evidencia mais a precria caracterizao dos indgenas.
        J na apresentao de O Ermito do Muqum, aponta suas prprias limitaes, confessando tambm desconhecer, como de resto todos os brasileiros de ascendentes 
europeus, os hbitos e costumes dos indgenas. Mesmo, por suas viagens pelos sertes de Minas e Gois, e possuir um contato maior com os silvcolas, afirma ter plasmado 
sua aldeia Xavante a partir da imaginao.
        Surpreendemo-nos, pois, com o ttulo da obra: O ndio Afonso. Teria Bernardo sucumbido aos apelos do indianismo, enquanto idealizao de um carter nacional? 
J nas primeiras pginas percebemos que isso no acontece. Lanando mo do uso indistinto, comum entre a populao rural, das palavras "ndio" e "caboclo", caracteriza 
Afonso como um mestio. Se possui a estatura e traos religiosos dos europeus; ainda mantm os hbitos nmades e resqucios de um misticismo relacionado  natureza. 
Antes mesmo de Monteiro Lobato, identificava uma identidade problemtica para o brasileiro, consciente das contradies culturais advindas da mestiagem. Se no 
constri algo semelhante a um Jeca Tatu, pelo menos ressalta nesse novo tipo que v surgir algumas caractersticas que seriam depois caricaturadas por Lobato: a 
indiferena pelo trabalho organizado e contnuo e um alheamento completo em relao s normas e leis de uma civilizao calcada na europia.
        H algo tambm em Afonso que j antecipa tenuamente Macunama. Mesmo no se propondo a organizar uma narrativa rapsdica, faz seus personagens se deslocarem 
pelo espao unicamente em funo de uma nova peripcia, tenuamente relacionada com a anterior. Isto porque, mesmo denominado "romance", O ndio Afonso no possui 
minimamente as caractersticas dessa forma ficcional. Aproxima-se bem mais da novela picaresca, voltada para uma seqncia de peripcias.
        Se, logo em sua abertura, nos sugere uma trama densa, em que uma tentativa de estupro logo se segue a uma vingana brutal, essa logo se afrouxa, diluindo-se 
lentamente. Os captulos que se seguem tratam unicamente de relatos de algumas estratgias de fuga do protagonista. Assim, a obra se assemelha a uma recolha de narrativas 
orais, em torno de um astuto e trapaceiro anti-heri popular. Algo como um Pedro Malazarte, o brasileiro malandro e astuto de muitas anedotas de nossa infncia (uma 
tradio que hoje, infelizmente, j se aproxima a passos largos da aposentadoria).
        Para um personagem trapaceiro, tambm um narrador trapaceiro. Se, na introduo, Bernardo Guimares adverte os mais sensveis para a crueza de seu relato, 
faz valer seu aviso apenas para as primeiras pginas, efetivamente rudes e at mesmo cruentas, tais como o episdio da castrao. Em seguida, como se piscasse um 
olho irnico para o leitor mais avisado, mantm apenas uma simulao de narrativa realista, mas diverte, a  si mesmo e ao leitor, ao desfiar anedotas sobre trapalhadas 
da polcia e espertezas do heri,  maneira dos "causos", da tradio oral.
        Para quem aguarda um ponto final conclusivo, com a reabilitao de Afonso, Bernardo deixa apenas algumas reticncias. Ao trmino da obra, vivo e ainda perseguido 
pela polcia, o esperto Afonso escapa sorrateiro tambm dos limites do livro, para se mesclar s inmeras outras narrativas da tradio popular. 
        Nada mais prprio para o controvertido escritor mineiro. Inquieto e irreverente, sempre entrelaou vida e fico, seriedade e deboche, tica e desprezo a 
normas e leis humanas nem sempre muito racionais. S para citar um exemplo deste entrecruzar vivencial e ficcional, basta lembrar de seu bilhete a um compadre, anunciando 
o nascimento de um novo filho, como se lhe comunicasse a publicao de um novo livro. Continuador de uma tradio familiar em literatura, Bernardo Guimares ainda 
espalha por a seus rebentos, no apenas biolgicos, com boas lombadas, bem encadernados, e certamente com uma inteligncia refinada e atenta ao contexto em que 
vivem. 




O NDIO AFONSO

Ao Leitor

        A notcia comea por estas palavras: - O ndio Afonso, heri de um dos contos, de Bernardo Guimares, etc. - Semelhante notcia a ser exata vem desmanchar 
completamente a figura do meu heri, a quem atribu carter magnnimo, ndole bondosa e sentimentos generosos. 
        Ora, em vista disto, para que se no pense que em meu conto tive o propsito de fazer a apologia de um facnora, cumpre-me declarar o que h de real e de 
fictcio em minha narrativa, e em que me baseei para prestar ao ndio Afonso o carter com que aparece em meu romance.
        Como se v, o ndio Afonso  personagem real e vivo ainda. Sua figura, costumes, maneiras, tom de voz, modo de vida, so tais quais o descrevi, pois tive 
ocasio de v-lo e conversar com ele.
        Os dois sobrinhos que andam sempre em sua companhia, tambm realmente existem; Caluta, Batista e Toruna so porm criaes de minha imaginao, assim como 
o so quase todos os feitos e proezas que fao o meu heri praticar.
         verdade que quando estive na provncia de Gois em 1860 e 1861, ouvi contar diversas faanhas do afamado caboclo; mas quando me lembrei, h pouco mais 
ou menos um ano, de escrever este romance, j delas me restava apenas uma vaga reminiscncia, e por isso  possvel que uma ou outra tenha algum laivo de veracidade.
        Para desenhar-lhe o carter baseei-me no que em Catalo ouvia dizer a todo o mundo. Todos o pintavam com o carter e costumes que lhe atribuo, e era voz 
geral que ele s havia cometido um homicdio, e isso para defender ou vingar um seu amigo ou pessoa de famlia.
        A descrio dos lugares tambm  feita ao natural, pois os percorri e observei mais de uma vez. Com o judicioso e ilustrado crtico, o Sr. Dr. J. C. Fernandes 
Pinheiro, entendo que a pintura exata, viva e bem tratada dos lugares deve constituir um dos mais importantes empenhos do romancista brasileiro, que assim prestar 
um importante servio tornando mais conhecida a to ignorada topografia deste vasto e belo pas.
        Por isso fao sempre passar a ao dos meus romances em lugares que me so conhecidos, ou pelo menos de que tenho as mais exatas e minuciosas informaes, 
e me esforo por dar s descries locais um traado e colorido o mais exato e preciso, o menos vago que me  possvel.
        Eis o que h de real em meu romance. Se, porm, o ndio Afonso  um bandido ordinrio, um facnora feroz e ignbil como tantos outros, pouco me importa.
        O ndio Afonso de meu romance no  o facnora de Gois;  pura criao de minha fantasia.
        
        Ouro Preto, 28 de fevereiro de 1873.

                                                        BERNARDO GUIMARES


I

        As fundas e emaranhadas selvas dos sertes de nossa terra, alm das imensas riquezas e curiosidades naturais que encerram, tm acobertado em sua sombra muito 
mistrio sinistro, muito negro drama de sangue e canibalismo.
        Os jacars de nossos grandes rios, com a cabea fora d'gua, os canguus da floresta acocorados sobre os galhos da peroba truculenta, a jararaca enroscada 
por baixo de velho e solapado cupim, quantas cenas assombrosas praticadas pelo homem no tero testemunhado, cenas de que eles mesmos tero ficado horrorizados?...
        Mas o segredo de tais histrias as alimrias guardam consigo e se contam  l entre si, e em uma linguagem que ningum pode compreender.
        Eu, entretanto, que s vezes tenho conversado com o grande esprito das florestas, que fala pelo zunido da ventania na grenha arrepiada das selvas seculares, 
e pelo bramido das cachoeiras dos rios dos desertos, estou um pouco habilitado para interpretar, ainda que imperfeitamente, essa linguagem, e poderei contar-vos, 
amveis leitoras, algumas dessas tremendas histrias.
        Talvez vos causem arrepios, em vez de deleitar-vos, e vos faam ataques de nervos as minhas histrias. Terei com isso grande pesar; mas que hei de eu fazer 
se no sei contar outras? 
        - Pois no conte nenhuma, direis vs.
        - Tendes razo, mas no posso atender-vos, porque batendo j s portas da velhice, a minha lngua, quero dizer, a minha pena  atormentada por um prurido 
invencvel de contar histrias.
        Bem quisera eu fazer-vos passear em companhia de meus personagens por uma enfiada de magnficos sales dourados, pisando em ricos e mimosos tapetes, no meio 
da mais polida e perfumada sociedade do mundo, ou embaladas em macios coups a trote largo, atravs das ruas e praas de uma esplndida cidade, ou por entre as alamedas 
de um suntuoso jardim, aspirando os aromas dos lilases, asfodlias, e cinamomos, ou mesmo em um vago de primeira classe, varando distncias enormes com rapidez 
vertiginosa, visitando cidades monumentais, percorrendo pases cheios de lindas tradies romanescas, juncados de prodgios de arte antiga e moderna, ou...
        Bem quisera eu muita coisa, mas no me  possvel.
        A minha tosca musa ainda no soube ensinar-me a calar com elegncia a luva branca de pelica, e a traar sobre o papel linhas perfumadas de todos esses suaves 
olores, que recendem nos sales de luxo, com todos esses esquisitos ressaibos de bom-tom prprios de uma companhia de alta sociedade.
        Em compensao, a tendes em vossa corte bom nmero de insignes talentos, que com tanta habilidade e elegncia sabem manejar a pluma do romancista, e que 
podem admiravelmente acariciar-vos a fantasia com lindas e galantes histrias de amores nascidos  sombra do caramancho do jardim e desenvolvidos ao esplendor dos 
lustres do salo de baile ou teatro, ou no convvio dos seres de famlia ao p do piano entre ondas de harmonia, ou em roda de uma mesa ao calor de um bule de ch.
        E isso no me  possvel, j o disse. A minha musa  essencialmente sertaneja; sertaneja de nascimento, sertaneja por hbito, sertaneja por inclinao.
        E pois no tenho remdio seno levar-vos comigo pelas broncas e selvosas ribanceiras do caudaloso Parnaba, atravs de espessas matas, ouvindo apenas o zunido 
da ventania pela cabeleira desgrenhada das bravias matas, e o ronco das cachoeiras pela quebrada das penedias, cuja enfadonha monotonia no deixa contudo de ser 
de quando em quando disfarada pelos urros formidveis de alguma sussurana, ou pelo bramido surdo que solta o sucuri no fundo das guas, quando ouve nos cus rolar 
o trovo.
        E, o que  pior ainda, no tenho remdio seno levar-vos a conviver por algumas horas com uma scia de caboclos quase selvagens, sem a menor tintura de civilizao, 
descalos e de chapu de couro, tendo por nico ornato uma comprida faca na cintura e um enorme cigarro na boca.
        Confesso que no  muito aprazvel semelhante panorama, nem muito amvel a companhia de semelhante gente.
        Mas espero que as amveis e indulgentes leitoras tero para comigo um bocado de pacincia.
        Para tornar-lhes mais suave ou menos enfadonho o giro por to inspitas e broncas regies, a minha musa toma a liberdade de oferecer a cada uma das leitoras 
um formoso caleche fabricado de vapores de ouro e rosas, tirado suavemente por duas parelhas de mansas e bem doutrinadas auras, e tendo por postilho um silfo areo 
muito bem educado e dessa inmera prognie da deusa Fantasia, nica dona e diretora dessa vasta empresa de locomoo aerosttica.
        A dita diretora faz-me s vezes a honra de pr  minha disposio todo o seu magnfico trem de rodagem, e  por isso que me acho hoje habilitado a oferecer 
a cada uma de minhas amveis leitoras um veculo areo nas melhores condies, mais mimoso e macio do que o carro de Anfitrite1, ou a concha de sis2.
        Peo-lhes, pois, encarecidamente, que se dignem aceitar o meu humilde oferecimento.
        Dentro desses caleches as lindas e delicadas damas podero acompanhar-me at ao fundo dos meus remotos e bravios sertes, sem perigo algum e sem fadiga, 
que  o que mais ambiciono.
        Iro muito a seu cmodo, com as mimosas e delicadas formas mui bem abrigadas contra os ardentes pampeiros e os sis abrasadores do deserto, sem riscos de 
rasgarem seus elegantes vestidos nos bamburrais das matas emaranhadas, nem de molestarem seus macios pezinhos nas escabruras dos rochedos e, o que  mais ainda, 
podendo ouvir urrar a pantera e roncar o sucuri sem lhes temerem o bote.
        O meu nico receio, caras e adorveis leitoras,  que, embaladas pelo sereno e suavssimo movimento de meus veculos, acometidas de invencvel sonolncia, 
vs vos ponhais a dormir, largando-me sozinho no meio dessas vastas solides.
        Mas enfim, acontea o que acontecer, vamos ao serto, e seja o ndio Afonso a primeira pessoa com quem travemos relaes. 

II

        O ndio Afonso  um personagem real. Pelo menos em 1861 ainda ele existia nas matas do Parnaba, na provncia de Gois.
        Era ou  ainda ru indiciado em um crime de morte, mas tem por menagem umas cinqenta ou sessenta lguas de florestas virgens em uma e outra margem do Parnaba, 
que serve de linha divisria entre as provncias de Minas e Gois, desde o rio So Marcos at a confluncia com o Paran, por a polcia de Gois o deixar vaguear 
livremente, porque, depois de o perseguir em vo muito tempo, perdeu a esperana de poder-lhe jamais lanar as garras.
        Afonso pertence a esta raa de mestios que vivem vida nmade e semibrbara pelas margens dos grandes rios do serto, subsistindo quase exclusivamente de 
caa e pesca.
         um caboclo de estatura colossal e de organizao atltica. De ordinrio anda s, mas sempre armado, desde os ps at a cabea, com excelentes armas, de 
que sabe usar com incrvel destreza. Alm de sua boa espingarda, de dois canos, que nunca lhe sai do punho, traz ao cinto duas pistolas de dois tiros, uma formidvel 
garrucha, a indispensvel faca e uma pequena foice. Desta maneira ele s com sua valentia vale por vinte;  como um fortim ambulante.
        Apesar de todo esse aparato blico, o seu exterior no inspira terror. Sua fisionomia expansiva e alegre  dotada da mais branda e bondosa expresso, a fala 
 meiga e vagarosa, e quer nos modos, quer no porte, nada tem de arrogante e avalentado.
        Anda muitas vezes de companhia com a famlia de sua irm Caluta, casada com um caboclo por nome Batista. Consta essa famlia dos dois esposos e de dois filhos, 
dois bem dispostos e vigorosos rapages; quase to altos como seu tio.
        Antes de praticar as proezas que o tornaram o terror e assombro do serto, Afonso j era famoso naquelas paragens, tanto por sua cordura e bonomia, como 
por usa grande fora e assombrosa agilidade e destreza, como  raro encontrar-se em estaturas agigantadas como a dele.
        Se lhe era mister pegar uma rs no campo, no tinha preciso de lao nem de adjutrio de pessoa alguma. Veloz como o veado, deitava a correr atrs dela, 
e em breves instantes, agarrando-a pelas pontas, tombava-a no cho, ainda que fosse um touro o mais truculento. Assim, quando se aborrecia de caa e pesca, no lhe 
faltava excelente carne de gado pelos campos de Catalo e Santa Luzia.
        Os fazendeiros daquelas regies, no sabendo ao certo o nmero de gado que possuam disperso por imensas campinas, no davam f de uma rs que lhes faltasse, 
e mesmo sabendo que uma ou outra lhes havia sido bifada por Afonso, o davam por bem feito, e de modo nenhum quereriam entrar em questo com o famoso caboclo por 
causa de semelhante ninharia.
        Era sobretudo n'gua que Afonso se tornava um verdadeiro prodgio de fora e destreza. Seu enorme e esguio corpo tinha a flexibilidade da serpente e a robustez 
da anta. Varava a gua com a rapidez de uma canoa tangida por valente remador. 
        Conhecia palmo a palmo todo o curso e ambas as margens de seu ptrio rio, desde as cabeceiras at sua confluncia com o Paran.
        Todas aquelas vastas e sombrias florestas que bordejam o Parnaba de um e outro lado, eram como parques e jardins, em que se aprazia o valente filho do deserto, 
feliz, tranqilo e altivo como rei que era daquelas imensas solides.
        Graas ao vigor e ao comprimento de suas musculosas pernas, palmilhava com velocidade espantosa as imensas e emaranhadas selvas que bordejam o rio, desde 
Catalo at Santa Ana do Parnaba.
        Quando desce, porm, no tem grande necessidade das pernas; qualquer tronco, que a tempestade prostrou sobre a torrente, qualquer camalote3 que a enchente 
arrancou da barranca, lhe serve de barco, e to  familiarizado est com as vagas do seu rio querido, que parece que as rege e domina com um aceno de sua fronte.
        Afonso j no se esconde muito, nem anda como foragido, e costuma aparecer de quando em quando pelas fazendas e povoados, mas, j escaldado de muitas traies, 
 sumamente desconfiado, e no aceita agasalhos debaixo do teto de quem quer que seja, por mais cordial e franca que seja a hospitalidade que se lhe oferea.
        Conserva-se no meio do terreiro ou do curral, e ali assentado, com todas as suas armas ao p de si, recebe todos os obsquios que o gnio hospitaleiro dos 
sertanejos lhe costuma oferecer; sempre vigilante, e lanando em volta de si de quando em quando olhares escrutadores. Mas ainda que chova a potes, ou que faa um 
sol de rachar, ningum  capaz de fazer com que aceite abrigo debaixo de telhado.
        Ele, que nenhum medo tinha dos jacars e canguus do mato, nem dos mais sanhudos valentes do serto, ele, que era capaz de ir esfaquear um sucuri no seio 
profundo das guas, receava-se infinitamente dos soldados de polcia.  que amava mais que tudo sua selvtica liberdade, e parecia-lhe que, se fosse parar  cadeia, 
morreria infalivelmente em poucos dias.
        Algumas pessoas de considerao tentaram por vezes persuadi-lo a que se entregasse  justia, garantindo-lhe a absolvio, visto que o seu crime era extremamente 
defensvel.
        Mas o desconfiado caboclo nunca quis anuir a semelhante proposta. No tinha confiana alguma nos homens, e s a idia de ver-se privado da liberdade, embora 
fosse por alguns dias, causava-lhe horror.
        Qual era, porm, esse enorme crime que o caboclo havia cometido?
        Eis o que passo a contar a meus leitores. 

III

        Toruna era o apelido de um sanhudo facnora avezado a toda a espcie de crimes e atentados; do nmero desses bandidos que at hoje tanto abundam infelizmente 
nas fronteiras centrais de nossas provncias, saltando de uma a outra para se esquivarem s perseguies da polcia.
        H muito que esse malvado concebera viva inclinao pela irm de Afonso, que, em verdade, na sua especialidade de cabocla, tinha todos os dotes do corpo 
prprios para inflamar os sentidos e render os coraes.
        Se bem que no muito bonita, era sumamente bem feita de corpo, airosa e engraada, e tinha um sorriso e uns modos to meigos, que enfeitiavam. Tinha exatamente 
a ndole e o temperamento de seu irmo, era a bondade e a meiguice personalizadas; mas tinha tambm muito brio e pundonor, e, uma vez ofendida, aquela mansa pomba 
transformava-se em pantera.
        Toruna de si para si jurara pelo punho de sua faca de bandido que, fosse l como fosse, havia de lograr os favores de Caluta.
        J por vezes tinha tido a ousadia de prostrar-se aos ps da cabocla, declarando-lhe sua louca paixo, e havia esgotado todos os meios de seduo ao seu alcance, 
sem obter seno palavras de desprezo e ameaa da parte daquela altiva e gentil Lucrcia4 das florestas.
        No restava mais ao perverso pretendente outra esperana que no fosse o emprego da violncia e do terror, meio ante o qual sua conscincia de facnora no 
hesitava um s instante, mas ante o qual sua grande coragem de valento no deixava de trepidar.
        Batista era terrvel e ciumento como um tigre; e Afonso, que idolatrava sua irm, era um assombro de intrepidez, agilidade e valentia, e tinha mesmo por 
seus rasgos de astcia e destreza adquirido a fama de feiticeiro ou de ter pacto com o diabo, de maneira que era o terror de todos aqueles sertes.
        Todavia Toruna, que sentia cada vez mais arder-lhe nas veias sua paixo cega e brutal, no desistia de suas criminosas intenes. Em todas as peregrinaes 
que a pequena famlia de Batista fazia pelas matas e sertes, Toruna jamais deixava de acompanh-la, no francamente na mesma comitiva, mas de longe e disfaradamente, 
de modo que em todas as voltas que davam pelo deserto, Toruna os ia seguindo e rodeando, ora pelos flancos, ora pela frente ou retaguarda,  maneira da ona que 
negaceia a manada de gado que o boiadeiro tange atravs dos sertes, bifando-lhe ora uma, ora outra de suas melhores reses.
        Assim andava Toruna no rasto de Caluta,  espreita de um ensejo favorvel para realizar seus hediondos desgnios.
        Por essa ocasio Afonso bem poucas vezes se separava da famlia Batista, porque assim lho pedia sua irm, j receosa de algum desacato ou violncia de Toruna. 
Todavia Caluta ainda no tinha querido dar parte ao marido nem ao irmo do atrevimento do facnora; estava certa de que eles o matariam, e tinha receio de que tanto 
um como outro se vissem em conflito com a justia, e lhe cassem nas mos, deixando-a desamparada no meio daqueles sertes.
        Poucas lguas abaixo da vila, hoje cidade de Catalo, o rio Parnaba desce rugindo por um pequeno degrau de pedra, quebrando-se em alvas e espumantes catadupas5, 
como um longo ramal de rosas brancas que se estende de uma a outra margem, e vem formar embaixo um vasto e sereno tanque azul, espreguiando-se em leito de fina 
areia  sombra de gigantescos e magnficos arvoredos. Logo, porm, abaixo desse remanso o rio continua sua carreira precipitada e turbulenta atravs das florestas 
por sobre veredas speras e pedregosas.
         borda desse tanque, na margem direita, estendia-se entre o rio e a floresta uma larga praia, coberta de branca e finssima areia, onde as guas enrugadas 
pelo choque da corredeira, vinham esbater-se brandamente, marulhando com frmito suave.

        Os baguaus6 com seus curvos e compridos leques e outros arvoredos da floresta deitavam fresqussima e deliciosa sombra pelas orlas do areal.
        Na boca da mata via-se um rancho improvisado, que consistia em uma simples coberta de ramas de baguau, feito de um s lance, tendo uma das extremidades 
pousada sobre o cho e a outra suspendida a um grande rochedo. Dentro desse rancho, onde havia um fogo, estava uma mulher ainda moa e de gentil presena, lidando 
em misteres de cozinha, enquanto pela praia brincavam e saltava dois espertos e robustos caboclinhos, dos quais o mais velho teria nove a dez anos e o outro pouco 
menos.

        Era Caluta, a irm de Afonso, com seus filhinhos; estava preparando o jantar para Batista e Afonso, que andavam a caar pela floresta. Gostavam muito daquele 
recanto profundo e ignorado das solides, e ali costumavam passar semanas a caar e pescar.
        A pesca, sobretudo, que alis  muito escassa no alto Parnaba em razo das muitas cascatas e corredeiras, e de que naquele stio h sempre uma tal ou qual 
abundncia, costumava atrair para ali os caboclos.

        Caluta, que ia de vez em quando ao rio apanhar gua ou lavar alguma vasilha, estava quase nua. Uma simples saia arregaada deixava ver at os joelhos as 
vigorosas e bem fornidas pernas; um leno de chita desdobrado e preso pelas pontas ao pescoo abrigava-lhe os ombros e as costas dos ardores do sol do meio-dia; 
um pequeno chapu de palha de buriti cobria-lhe a cabea, donde se desatavam cascatas de cabelos negros e corredios. Os seios, aqueles seios robustos que haviam 
j nutrido de leite suculento e so os dois rapagotes que brincavam junto dela, arfavam livres e completamente descobertos s auras da solido, e conservavam ainda 
toda a firmeza e o voluptuoso boleado da primeira mocidade. Caluta cantava uma dessas montonas e singelas cantilenas do serto, e a sua voz suave, mas vibrante, 
destacava-se por entre o rugir das catadupas e o rumorejo dos ventos pela coroa das florestas, produzindo o mais singular e encantador efeito. 
        Tranqila e descuidosa naquele ignorado recanto da floresta, Caluta, toda entretida com o seu servio, e na mais completa seguridade, no havia ainda avistado 
um vulto sinistro que, metido no mato, e meio oculto por trs de um pau, fitava nela os olhos abrasados em brutal lascvia, como que querendo devorar os desvendados 
encantos da casta esposa de Batista. S deu pela sua presena quando Toruna - pois era ele - aproximando-se rapidamente e agarrando-a por um brao, bradou-lhe:
        - Estou a, Caluta!... hoje  dia...
        Caluta soltou um grito de susto.
        - Meu Deus!... s tu? que me queres, Toruna?
        - Ainda me perguntas?!... j te no tenho dito tantas vezes? Tu s uma ingrata, Caluta; eu te quero tanto, e tu nunca...
        - Nunca! nunca!... atalhou com fora a irm de Afonso. - Isso que queres, no pode ser...
        - No pode ser!... agora vers se pode ou no pode.
        - Afonso!... Batista!... bradou a cabocla, com toda a fora de seus pulmes.
        - Pode gritar at rebentar, disse o malvado - ainda h pouco os deixei a ambos a mais de lgua daqui. Cuidava que eu no havia de escolher bem a minha ocasio?...
        Caluta, cheia de terror, de indignao e raiva a um tempo, ia lanar mo de um machado, que estava encostado ao rochedo do rancho; mas Toruna preveniu este 
momento e abraou-a vigorosamente pelas costas.
        - Que  isto, minha menina? No te arrebites comigo, que o caso sai mais feio. Olha, Caluta,   toa querer resistir.
        - S se me matares, malvado!
        Comeou ento uma luta atroz e horrvel entre os dois. Caluta debatia-se com a nsia do desespero entre os braos vigorosos do execrvel facnora. Os dois 
meninos, que, ouvindo os clamores de sua me, haviam acudido prontamente, soltando gritos consternados e com os olhos fuzilantes de raiva, arrojaram-se ao monstro, 
como dois filhotes de ona, e atracando-se-lhe s pernas, o unhavam e mordiam desapiedadamente, e no davam pouco que fazer ao robusto caboclo, que debalde os sacudia 
de si ora com um soco, ora com um coice ou um pontap; os meninos voltavam  carga cada vez mais assanhados e enfurecidos.
        Graas ao auxlio dessas crianas, Caluta s vezes conseguia arrancar-se dos braos de seu feroz agressor, e corria ento, procurando sempre avizinhar-se 
 beira do rio do lado inferior abaixo do grande poo, onde as guas se precipitavam em novas corredeiras; mas Toruna para logo lanava-lhe de novo as garras.
        Esta horrvel luta durava j quase um quarto de hora. Caluta e Toruna, com as roupas estraalhadas, estavam quase nus. O corpo do bandido, todo crivado de 
arranhes e dentadas, gotejava sangue por todos os lados. O da nobre mulher no estava mais bem tratado. Caluta, exausta de foras, sentia-se desfalecer. O caboclo, 
com um coice no peito, tinha atirado no cho sem sentidos o mais velho dos meninos. O outro, com o rosto e os olhos cobertos de sangue, j no podia fazer mais do 
que dar horrveis gritos, espernegando e agitando os braos como um possesso.
        Caluta j se achava a alguns passos apenas da borda do rio, em um lugar para onde durante a luta havia sempre forcejado avizinhar-se. Era, como j dissemos, 
abaixo do grande tanque, onde o rio arrojava-se de novo em corredeira, por um leito spero e escabroso. Caluta estava sobre o lajedo musgoso, que subia em rampa 
suave at a beira do rio, sobre a qual se debruava. Por baixo desse lajedo a torrente, encantoando sua grossa coluna de guas, corria rpida e profunda para ir 
rebentar pouco abaixo em alterosas e medonhas catadupas. 
        - Basta, Toruna!!... dizia, Caluta, arquejando e com a voz fraca e entrecortada. - Basta!... estou entregue... estou morta!... Olha, malvado!!... olha, em 
que estado... puseste meus pobres filhinhos... tem piedade deles ao menos...
        A estas palavras Toruna largou a mo da cabocla e voltou-se para olhar as crianas.
        Caluta em dois saltos ganhou a borda do lajedo e atirou-se na torrente, que a arrebatou aos bolus7 pelo seu spero e revolto leito.


IV

        No  possvel descrever o estado de consternao, furor e desespero, em que ficaram os dois caboclos, quando ao declinar do sol, voltando ao rancho, encontraram 
os dois meninos espancados, cobertos de sangue, debulhados em lgrimas, abraadinhos um com o outro a exclamarem entre soluos: - mame morreu!... mame morreu!...
       - Morreu!... que esto dizendo, meninos?!... Caluta morreu?!... bradou Afonso com um acento de voz tremenda, indefinvel, enquanto Batista, plido e trmulo, 
com os olhos estatelados e a boca aberta sem proferir palavra, olhava espantado para seus filhos.
        - Caiu no rio, titio; foi pela gua abaixo, murmurou soluando um dos meninos.
        - Pela gua abaixo!... mas como foi isso?... vocs esto sonhando, meus filhos!...
        -  deveras, papai; Toruna apareceu aqui, agarrou nela e atirou ela no rio...
        - O Toruna! bradaram ao mesmo tempo Afonso e Batista. Contem-nos, meninos, contem-nos depressa como foi isso?...
        Os dois caboclos com o peito a arquejar, o corao e os olhos a faiscarem de clera, acocoraram-se no cho, e cada um, enlaando um dos meninos, comearam 
a interrog-los e escut-los.
        - Contem, contem depressa como foi isso, tudo muito direitinho.
        Os meninos comearam ento a contar ou antes a soluar, chorando, a histria do horrvel atentado de Toruna, e o desastrado fim de sua infeliz me.
        Quando as lgrimas e solues embargavam a fala de um, o outro tomava a palavra, e ia balbuciando por diante a tremenda narrao.
        s vezes, porm, ambos desatavam a chorar ao mesmo tempo, e foi com bastante custo que Afonso e Batista conseguiram inteirar-se com exatido de tudo que 
havia acontecido.
        - Basta, meus filhos!... exclamou Batista levantando-se e batendo com o p na terra. - J sei quanto  preciso... Aquele co h de me pagar!
        Batista soltava gritos de dor e bramidos de raiva, que abafavam o rugido das cachoeiras, e retroavam pelas ermas ribanceiras como os urros medonhos de um 
touro enraivecido. Afonso, mais calmo na aparncia, vertia lgrimas de fogo, e s de quando em quando exclamava com voz rouca e convulsa:
        - Ai! minha irm! minha pobre irm!... aquele co maldito!... ainda que v parar nos infernos, hei de rasgar-lhe o corao, e beber-lhe o sangue!... por 
onde se foi ele, meninos?... no repararam?...
        - Foi por ali, titio, disseram os meninos, apontando para um estreito trilho ou uma aberta quase imperceptvel, que se enfiava pela floresta, talvez batida 
de animais bravios.
        - Est bom, meus filhos - disse Afonso. Agora, Batista, deixemo-nos de choradeiras e gritarias... com isso no havemos de dar vida outra vez  pobre Caluta; 
 preciso ving-la. Eu vou-me por aqui atrs dele, e os demnios me carreguem se por estes dois ou trs dias aquele co maldito no vai pagar ao diabo todo o mal 
que nos fez.
        - Tambm eu hei de ir, Afonso... eu mesmo quero com minhas mos esganar aquele diabo...
        - E quem h de ficar com estes pobres meninos?... replicou Afonso; voc fica, Batista, e no entanto desces pela beira desse rio abaixo a ver se podes encontrar 
ao menos o corpo da coitada de tua mulher.
        - Nesse caso fica voc, Afonso. A mim  que compete dar cabo daquele co.
        - Pior  essa, Batista; melhor  que voc fique tomando conta de seus filhos. Eu c por nada posso deixar de ir. Acho que minha alma no pode se salvar, 
se eu no der cabo do matador de minha irm.
        Batista nunca ousava opor-se s vontades de seu cunhado, que exercia sobre seu esprito um poderoso ascendente, e resignou-se a ficar.
        - Espere-me aqui, disse Afonso, e no saiam enquanto eu no voltar. Se Deus me ajudar, em dois ou trs dias estou de volta.
        Afonso tomou todas as suas armas, e enfiou-se pela mal batida vereda, que os meninos lhe tinham indicado, um verdadeiro tnel de verdura, baixo e estreito, 
aberto por entre uma rede espessa e emaranhada de ramos, taquaras e cips.
        Batista ficou com os meninos, que, sentados  beira do rancho, com os braos enlaados ao ombro um do outro, no cessavam de chorar e soluar, repetindo 
a cada soluo a triste frase: mame morreu!...
        - No chorem assim, meus amiguinhos - disse Batista agachando-se e tomando os meninos, um em cada brao e beijando-os. - No chorem mais... mame no morreu, 
no, Deus  grande e de misericrdia. Eu vou por a abaixo a procurar sua me. No entanto no chorem, fiquem a bem quietos e caladinhos... No tenham medo, que 
antes de fechar a noite eu estou a para ficar com vocs.
        Batista beijou-os de novo, e partiu deixando-os a soluar na mesma posio em que se achavam antes.
        O leitor por certo j ter tido ocasio de observar dois filhotes de passarinhos, cujos pais, vtimas de algum lao ou chumbo, ou de alguma cobra ou gavio, 
no puderam mais voltar ao ninho, deixando a tenra e implume prole exposta a todos os rigores da fome e do frio.  um espetculo que faz d. Os pobrezinhos, arquejando 
e tiritando de frio, esto a cada momento piando e abrindo em vo os biquinhos,  espera do alimento que nunca vem.
        Assim ficaram os dois meninos sempre unidinhos e a chorar, repetindo de quando em quando aquele nome to suave, mas agora to doloroso para eles: - mame!... 
mame!... E assim a noite os veio surpreender sozinhos e desamparados no meio daquelas medonhas solides...
        Deixemos Batista descer pelas agrestes e broncas ribanceiras do Parnaba, em procura do cadver de sua infeliz mulher, e sigamos Afonso, que l vai a passos 
de gigante, varando as florestas com incrvel rapidez, rompendo por espinheiros de tabocais8, sem nunca perder as pegadas do fugitivo Toruna. Este tambm de sua 
parte, certo de que seria perseguido pelo marido e pelo irmo de sua vtima, empregava na fuga toda a celeridade de que era capaz, demandando as alturas do arraial 
de Caldas, onde esperava ficar a salvo das garras de um e outro.
        Esta pequena povoao, notvel por uma torrente de guas termais que correm junto dela e donde lhe vem o nome de Caldas, fica como a umas dez ou doze lguas 
do stio de Santa Cruz. Ali tinha ele vrios amigos e comparsas, com o auxlio dos quais contava fazer face a qualquer tentativa de vingana da parte de Afonso ou 
de Batista.
        Afonso, porm, o seguia encarniado, como a ona esfaimada segue o rasto do veado fugitivo. Graas s suas robustas e compridas pernas, cada uma de suas 
passadas media mais de dois metros. Afeito a rastejar a anta, o veado e a ona atravs das mais escuras e emaranhadas brenhas, tinha tino no menos admirvel para 
seguir a pista de um homem, e portanto nunca mais perdeu o rasto do assassino de sua irm. Andou a noite inteira e quase todo o dia seguinte, atravessando imensas 
campinas, brenhas e cerrades, dirigindo-se por estreitos e mal formados trilhos, que se enleiam num ddalo sem fim por aquelas solides.
        Era quase sol posto quando Afonso chegou a um delicioso e ameno vale, a cerca de meia lgua do arraial de Caldas. Era um vargedo coberto do mais ntido e 
vioso esmalte, atravs do qual por um groto profundo deslizava um lmpido ribeiro  sombra de duas orlas de bosquetes toucados de flores. O ribeiro escorregava 
rpido sobre o liso e arenoso leito, e sua superfcie ligeiramente encrespada pela correnteza semelhava uma trana de lminas cristalinas. Algumas bonitas flores 
lilceas, destas que gostam de viver entre os rochedos,  beira dos regatos, balanceavam faceiras seus clices odorosos, mirando-se no cristal da corrente. A tarde 
estava serena e cheia de esplendores; o ar tranqilo e embalsamado mal fazia ondular o tope dos arvoredos, e o horizonte inundado de luz estava todo marchetado de 
lminas de ouro e ptalas de rosas.
        Que stio encantador! Que hora to fagueira e propcia aos sonhos de um poeta, ou s saudosas cismas de um amante!... Era um delicioso ninho de amor, preparado 
pela mo da natureza no seio da solido.
        Entretanto, esse risonho e plcido asilo, que s deveria ver em seu seio cenas de amor e de ventura, que s deveria escutar o canto das avezinhas, o meigo 
arrulho das pombas, ou os colquios apaixonados e os lnguidos suspiros de dois amantes felizes, vai agora ser o teatro da mais horrvel cena de canibalismo e vingana!...
        Ao entrar na borda do estreito capo que orlava as margens do ribeiro, Afonso avistou Toruna que, agachado tranqilamente  beira do crrego, bebia gua 
no cncavo da mo. 
        Estando j nas vizinhanas do arraial, julgava-se em perfeita segurana e inteiramente fora do alcance das garras do formidvel caboclo. Cumpre notar que 
Afonso por aqueles descampados chapades, por onde muitas vezes se avista a longas distncias, j tinha por vezes lobrigado diante de si a sua presa, e desde ento 
tratara de ocultar a sua marcha, largando muitas vezes o trilho para enfiar-se nas bordas dos capes, pelas baixadas e cerrados, a fim de no ser visto por Toruna, 
o qual de sua parte temeroso, como ia, da vingana dos dois caboclos, no deixava de lanar para trs, de quando em quando, olhares inquietos e escrutadores. 
V

        Logo ao entrar no mato a senda descia rapidamente at a beira do crrego por uma rampa de quinze a vinte passos. Mal ps os olhos em sua vtima, Afonso, 
rpido e sutil como um jaguar, desceu a rampa em trs ou quatro pulos, e cravou ambos os ps sobre os ombros do facnora, fazendo-o cair de bruos com a cara enchafurdada 
na gua e na areia do crrego.
        Sem mais demora pe-lhe um p sobre a nuca e recalca-lhe ainda mais a cabea na lama do regato. O malvado, nas nsias da asfixia, debatia-se e espernegava 
embalde debaixo das hercleas patas do truculento caboclo.
        Afonso, mais que depressa, arranca-lhe todas as armas e as atira para bem longe.
        Podia t-lo feito morrer ali mesmo esganado e afogado em lama; queria, porm, saciar a mais longos tragos a sede de vingana que lhe envenenava o corao.
        - Levanta-se da, maldito! - exclamou ele, saltando de cima do corpo de Toruna, e dando-lhe um rijo pontap.
        O miservel a custo arrancou-se da lama em que se achava enchafurdado, e, levantou-se atordoado, trpego e quase cego em razo da areia e lama que lhe cobriam 
o rosto e os olhos, comeou a olhar espantado para todos os lados, como procurando um canto, onde pudesse fugir e pr-se a salvo. Mas Afonso tinha-se colocado diante 
dele com uma pistola engatilhada.
        - Se arreda o p da, o varo j de meio a meio com uma bala, bradou Afonso.
        O malvado, transido de terror, no teve nimo de mexer-se nem de dizer palavra. Com suas mos de ferro, Afonso agarrou-o por ambos os pulsos, e o arrastou 
para perto de uma rvore. O ndio j trazia consigo de propsito um rolo de corda de embira bem forte, e sem que Toruna tentasse opor-lhe a menor resistncia, arrochou-lhe 
fortemente os pulsos, suspendeu-os e arrumou-os bem esticados a um galho da rvore, de modo que o pobre diabo ficou tolhido de todo e qualquer movimento.
        Concludo aquele servio, que executava no maior silncio e com a mais horrvel impassibilidade, Afonso disse ao paciente:
        - Agora, camarada, tem pacincia, espera a um bocadinho, que eu j volto para ns conversarmos.
        Os dedos me tremem convulsos, e a pena arrepiada de horror range sobre o papel, ao encetar a narrao da hedionda cena que vai seguir.
        Afonso dirigiu-se para a beira do crrego, apanhou na torrente uma pedra bem lisa, tirou da bainha sua larga e comprida faca, agachou-se e com a maior pachorra 
do mundo comeou a amol-la vagarosamente.
        O silncio, que reinava no seio daquela profunda e tranqila solido, era apenas perturbado pelo dbil barulho da torrente, e pelo ringir da faca do caboclo 
passando pela pedra.
        Passados alguns minutos, Afonso levantou-se, chegou-se para o paciente. Este, enfim, no auge do terror, resolveu-se a implorar compaixo.
        - Afonso! Afonso! - exclamou com voz de cortar o corao. - Que me queres fazer?... Pelas cinco chagas de Nosso Senhor Jesus Cristo! perdo, Afonso!
        - Pelas cinco chagas?! respondeu Afonso com um sorriso feroz. - Agora mesmo te vou mostrar quais so as cinco chagas...
        - Oh! no, no!... tem piedade de mim, Afonso.
        - Piedade de ti! porventura tiveste tu piedade de minha irm, quando atiraste-a no rio?... e que mal te havia ela feito? fala, malvado!... pobrezinha de 
minha irm! quantas nsias no sofreu... a morte do afogado  cruel. Tu agora j deves ter alguma idia do que ela seja, Toruna; foi para esse fim que te fiz comer 
barro ali por uma boa temporada... ento, que tal achas que deve ser a morte do afogado?
        - Mas no fui eu que a matei, Afonso...
        - No foste tu?... quem foi mais ento?...
        - No fui eu, no: eu te juro, Afonso. Eu no queria fazer-lhe mal nenhum... ela mesma ficou com medo  toa, e atirou-se no rio.
        - Cala-te da, maldito!  melhor que cuides em fazer ato de contrio e encomendes tua alma a Deus... a Deus!... - interrompeu-se o ndio com uma feroz gargalhada 
- Deus... que estou eu dizendo?... estou que essa alma danada nem o diabo a querer.
        Dizendo estas palavras, Afonso, de faca em punho, arregaava tranqilamente as mangas da camisa, prestes a dar comeo a sua atroz e nefanda obra. 
        Confesso que no sei que expresses hei de empregar para contar aos leitores, e especialmente s delicadas leitoras, estas cenas de canibalismo9 e de horror, 
e vejo-me em tais embaraos, que j me arrependo de ter encetado a histria de to sinistro e revoltante drama.
        Com todo o sossego e impassibilidade, como quem destrina um porco morto, Afonso levou a faca s carnes do msero Toruna. Depois de o ter castrado de um 
s golpe, cortou-lhe os beios, o nariz e as orelhas. Corro sobre estas palavras como quem passa sobre as brasas de uma fogueira, se bem que Afonso praticasse todas 
aquelas brbaras amputaes com todo o vagar e com a mais horrvel fleuma e sangue-frio. 
        Os ecos daquela amena e tranqila solido acordaram sobressaltados e espavoridos aos medonhos uivos de dor e bramidos de desespero que arrancava do peito 
o desventurado e miserando Toruna.
        Concluda a brbara vingana, Afonso desamarrou a msera vtima com o corpo assinalado com aquelas cinco horrveis e hediondas chagas a esgotarem sangue 
em jorro, e disse-lhe:
        - Agora, camarada, pode ir embora; tive pena de ti, e no te quis matar; j se v que no te quero mal. O que acabo de te fazer,  para teu bem e teu sossego. 
Ao menos daqui em diante no hs de ter mais vontades de desencaminhar a mulher de ningum, nem por bem nem por mal. Vai, vai para o arraial a ver se te botam algum 
remdio nessas feridas.
        Falando assim, Afonso punha-lhe o chapu na cabea e o empurrava para o caminho.
        A vida  sempre amvel, mesmo quando no nos resta mais do que um corpo mutilado, impotente e asqueroso. O msero Toruna, portanto, aceitou o conselho de 
Afonso e, a muito custo, foi-se arrastando para o arraial, deixando pelo caminho um rastilho de sangue.
        Imagine o leitor que eu no tentarei descrever o espanto e horror que produziu no pequeno arraial de Caldas o aparecimento daquela figura to horrivelmente 
mutilada, aquele espectro ensangentado!
        Faa-se idia do terror e assombro com que a populao, que, consternada e espavorida, se condensava em torno do miservel, escutava aquela boca sem lbios, 
contando entre golfadas de sangue, e bramidos de dor, a histria do horroroso atentado, de que acabava de ser vtima.
        Infelizmente, no pobre arraial no havia ento mdico nem curandeiro, remdio, nem recurso de natureza alguma, e o infeliz, esvado em sangue, expirou nessa 
mesma noite, dando assim o mais hediondo fim quela hedionda e monstruosa existncia.

VI

        No dia seguinte j era noite fechada quando Afonso chegou ao rancho, onde tinha deixado a famlia  beira do Parnaba.
        Fazia um bonito luar. Os raios da lua, filtrados atravs dos ramos trmulos do arvoredo, ondulavam brincando na branca areia da praia, enquanto o disco argnteo, 
resvalando de esguelha sobre a superfcie levemente enrugada do grande poo, tremia sobre as guas, partindo-se em mil lminas refulgentes.
        No meio do profundo silncio da natureza, erguia-se majestosamente e solene a voz das catadupas com seu eterno e montono estrugido enchendo os espaos da 
solido.
        Ao avizinhar-se daquele recinto Afonso sentiu a mais pungente tristeza apertar-lhe o corao. Ai dele! Sua boa e carinhosa irm j no o esperava mais  
entrada do rancho, onde ia encontrar soluando duas pobres crianas privadas para sempre dos carinhos maternos!
        Parou, e, apertando as mos ao peito, olhou para o cu, abanando tristemente a cabea. Faltava-lhe coragem para entrar naquele asilo de angstia e desolao.
        - Pobre Caluta!... pobres meninos! - murmurou com voz surda. - Nem tenho nimo de ver esses coitadinhos... mas, enfim, que remdio... Afonso entrou a passos 
vagarosos, de braos cruzados e cabea baixa. O rancho estava silencioso e parecia deserto; o fogo estava quase a se apagar. Batista havia sado por momentos a lanar 
uns anzis no rio.
        Afonso, porm, reparando  luz do luar, que escassamente alumiava o interior da cabana, no tardou em avistar em um canto os dois meninos que, abraados 
um com outro sobre uma esteira de buritis, dormiam tranqilamente. Contemplou-os por alguns instantes, imvel, de braos cruzados, e duas grossas lgrimas rebentaram-lhe 
dos olhos e rolaram silenciosas pelas faces crestadas. Debruou-se sobre eles e beijou-os, inundando-lhes o rosto de uma torrente de lgrimas.
        Quem diria que aquele homem que ainda h pouco vimos perpetrar o ato da mais brbara vingana com a fria e impassvel ferocidade do tigre, tambm sabia chorar?!
        Era assim Afonso: era pior que um jaguar, quando a raiva lhe fazia estuar o sangue no corao; quando lhe falavam n'alma os doces afetos da famlia, as emoes 
do amor e da amizade, era uma pomba de mansido e de ternura.
        Depois de afagar e beijar as crianas adormecidas, Afonso levantou-se vagarosamente e, olhando para diante de si, deu subitamente um grito de espanto e recuou 
espavorido.
        O vulto de Caluta estava no fundo do rancho sorrindo e com os braos estendidos.
        Eram as formas de um fantasma vagamente desenhadas na penumbra da espelunca, ao claro frouxo do fogo quase extinto.
        Afonso, triste e trmulo, queria falar, mas a voz se lhe afogava na garganta. Aquela alma de ferro, inacessvel ao medo, afeita a afrontar todos os perigos, 
era sujeita a terrores supersticiosos e tremia como uma vara verde em presena de uma alma do outro mundo.
        - Alma de Caluta!... exclamou ele enfim, conseguindo arrancar do peito um som rouco e gutural. - Que queres de mim?... fala... eu j no te vinguei?...
        Caluta avanou para ele; Afonso, assombrado, recuou; mas ela, com rpido movimento, lanou-se nos braos dele, dizendo: 
        - No tenhas medo, Afonso; minha alma ainda  deste mundo. Sou eu mesma; graas  misericrdia de Deus, desta vez ainda no morri, no, Afonso.
        -  deveras o que estou vendo?... tu no morreste, no, Caluta?... mas no h que duvidar... ela mesmo...  minha irm Caluta em corpo e alma... bendito 
seja Deus!
        Falando assim, Afonso abria muito os olhos, e apalpava a cabea, as faces e os braos de sua irm, como para verificar se no era com efeito uma sombra, 
ou uma alma do outro mundo, que tinha diante dos olhos. 
        Ainda uma vez Afonso chorou; chorou de alegria, de felicidade, ele, que um momento antes acabara de banhar de lgrimas de angstia e de amargura as faces 
de seus sobrinhos.
        Nesse momento entrava Batista, cantarolando alegremente uma cantiga do serto.
        Os gritos e algazarra de prazer franco, com que se saudaram os dois caboclos, despertaram os meninos que, conhecendo a voz de Afonso, levantaram-se de um 
pulo e saltaram-lhe ambos ao colo a cobri-lo de festas e de carcias. 
        - Ento?... que  do homem?... topaste? - perguntou Batista, depois das primeiras expanses de prazer.
        - Se topei!... como  que ele havia de me escapar!... s se a terra se abrisse com ele.
        - E acabaste com ele, no?...
        - Qual!... no quis matar aquele coisa ruim... no; mas fiz pior, e no sei se ele escapar.
        - Ah! viva isso mano!... se ele escapar, tem de acabar ainda nas minhas mos... mas, conta-nos, Afonso; como foi isso?... estou ardendo por saber o castigo 
que deste quele bruto maldito.
        - Eu j te conto... mas, minha gente, eu estou com fome: desde pela manh ainda no joguei nada na boca. No h por a nada que se coma?...
        - Como no?... disse Caluta, eu ento no havia de guardar jantar para voc?
        Caluta avivou o fogo quase apagado, ps-se a aquecer o caldeiro, e em breves instantes colocou diante de Afonso uma excelente ceia, feijo, angu, peixe, 
palmito e uma cabaa sortida de boa aguardente.
        Ento Afonso, ao mesmo tempo que ia comendo, foi contando em sua linguagem rude e expressiva, e com energia e animada gesticulao,  famlia sentada  roda 
do fogo, a horrvel vingana com que havia torturado o infeliz Toruna.
        - Bravo! bravo!... muito bem!... este mano  ona mesmo! bradava de quando em quando Batista, cheio de entusiasmo e batendo palmas.
        - Coitado! Deus lhe perdoe, como eu lhe perdo agora de todo o corao.
        Era Caluta, que s vezes assim murmurava a medo, ouvindo a horrvel narrativa de seu irmo.
        Sempre era um corao de mulher.
        - Pois, c da minha parte, disse Batista, logo que Afonso acabou de falar - tambm no me custou pouco a pescar a minha velha; coitada!... esteve por um 
triz a ir-se embora de uma vez por esse rio abaixo. Foi Deus, Afonso; foi Deus que falou pela tua boca, quando me mandaste procurar ela por esse rio abaixo.
        -  que meu corao estava adivinhando. Eu logo vi, este meu Parnaba me quer muito bem; assim como ele  bom para mim e me salva sempre do perigo, tambm 
no  capaz de fazer mal a nada do que eu quero bem. Mas, vamos l, Batista: agora voc, tambm me conta como foi isso.
        A seu turno Batista ps-se a contar como havia encontrado e salvado sua mulher.
        Logo que Afonso partiu, Batista, deixando os meninos no rancho, depois de os ter acalentado e consolado do melhor modo que pode, desceu abeirando o rio, 
e gritando com quanta fora tinha pelo nome de Caluta. No tinha ele quase esperana alguma de encontr-la viva. As corredeiras ali, violentas e medonhas, quebravam-se 
com fria entre uma multido de penhascos e lascas de rochedos. Mesmo o mais robusto nadador s por feliz acaso poderia ali salvar-se, quanto mais uma mulher extenuada 
pelos desesperados esforos de uma longa e encarniada luta.
        - Entretanto a Deus nada  impossvel, em todo caso sempre  bom tentar - pensava Batista, e continuou descendo e esquadrinhando com toda a ateno o leito 
e a beira do rio. J tinha andado quase meia lgua ao longo da margem sem resultado algum. Comeava a escurecer, e o infeliz, desanimado de poder encontrar sua mulher 
viva nem morta, j pensava em voltar para junto de seus filhos, que deixara to sozinhos no meio daquele deserto, quando cuidou ouvir a pouca distncia uma voz fraca 
por entre o barulho das  cachoeiras chamando por seu nome. Parecia o balido de uma veada exalando o ltimo alento entre as garras de ces encarniados.
        Correu pressuroso para o ponto donde parecia partir a voz, afiou o ouvido e conheceu perfeitamente a voz de Caluta, que o chamava. Ningum pode imaginar 
com que alvoroo de esperana e de alegria pulsava naquele instante o corao de Batista.
        Como a noite vinha descendo, no foi sem algum custo que chegou a descobrir sua mulher. Estava ela no meio da torrente agarrada a uma poro de coivaras10 
e paus atravancados, que o rio tinha arrastado, e que haviam encalhado em uma pequena coroa de pedras que ali existia.
       Felizmente, havia resvalado pelas catadupas sem se ofender nas pontas dos rochedos, e como sabia otimamente nadar, posto que cansada e levada aos bolus pela 
torrente, conseguia quase sempre manter-se  flor da gua, evitando afogar-se.
        Assim foi descendo, at que as guas do rio querido de seu irmo a depositaram sobre aquele molho de coivaras como de propsito, a fim de que seu marido 
tivesse tempo de vir salv-la.
        Mas de que modo conseguiria Batista saf-la dali? A coroa de pedra ou baixio distava como umas cinco ou seis braas da margem, um tero talvez da largura 
total do rio, e era separada da barranca por uma corredeira profunda e precipitada. Seria loucura tentar venc-la a nado. Com a fora das guas, que nessa ocasio 
iam crescendo algum tanto em conseqncia de chuvas nas cabeceiras, a jangada de paus, a que Caluta se achava atracada, comeava a abalar-se e a cada momento ameaava 
despegar-se da coroa e rolar pelas catadupas abaixo.
        Em to apertado transe cumpria no perder nem um instante. Que fez Batista?... Cortou  pressa no mato um cip bem forte e bem comprido, amarrou em uma das 
pontas uma pedra de mais de libra de peso, e disse para Caluta:
        - V l no te v cair no corpo; bota sentido e desvia-te. Amarra esse cip por baixo dos braos, que vou te puxar para terra. L vai!... sentido!
        E Batista, com toda a fora de seu musculoso brao atirou a pedra e o cip, que foi enlear-se em um dos galhos das coivaras. Mas, ai deles!... com aquele 
choque a travada de paus despegou-se da coroa e comeou a rodar. Batista e Caluta soltaram a um tempo um grito de terror. Mas esta, sem que tivesse tempo de fazer 
o que seu marido lhe havia recomendado, atirou-se com sofreguido ao cip e ao pau a que ele se havia enleado.
        Debalde forcejou Batista com quanta fora tinha, a fim de arrastar tudo para terra. Era impossvel deter aquela enorme e pesada ruma de paus arrebatada por 
to considervel e impetuoso volume de guas.
        Alm disso, receava o caboclo que o cip rebentasse, e no ousando empregar toda a sua fora, no teve remdio seno ir tenteando e acompanhando a jangada, 
ora aos pulos e aos arrancos, rasgando as roupas e as carnes pelos espinhos e escabruras da praia, ora por dentro do rio com gua pelos peitos, em risco de ser arrebatado 
pela corredeira, ele, cip, Caluta, coivara e tudo.
        Nesta rude e afanosa labutao teve o pobre caboclo de ir quase de rastos aps sua mulher por aquelas speras e pedregosas margens por cerca de mil passos. 
Felizmente, com o choque das guas e os empuxes do cip, foram-se desengastalhando alguns paus; e a jangada, j muito mais leve, tinha chegado a um ponto em que 
a torrente se tornava menos impetuosa. Batista conseguiu pux-la para terra, e depois de muitos riscos e fadigas pode enfim, chorando de alegria, apertar nos braos 
a esposa livre de todo o perigo.
        Posto que extenuada de cansao, e entanguida de frio, Caluta, escorada em seu marido e salvador, ps-se logo a caminhar, e ambos com a maior rapidez que 
lhes era possvel, se encaminharam para o rancho, inquietos e ansiosos por verem seus filhos.
        Quando ali chegaram, a noite j ia avanando. Os dois meninos, abraados estreitamente um ao outro sobre uma esteira, dormiam profundamente.
        Feliz idade, que nem o medo da morte, nem as angstias da vida, nem os mais dolorosos golpes do destino podem subtrair ao doce imprio das leis da natureza!
        Quando acordaram entre os beijos e abraos de sua me, julgaram por um momento que toda a horrvel cena daquela tarde no fora mais que um pesadelo, que 
os afligira durante o sono. 


VII

        O crime de Afonso, com todas as suas atrozes circunstncias, no tardou muito a ser levado ao conhecimento da polcia da capital de Gois, a qual logo tratou 
de dar as necessrias providncias e de expedir prontas ordens no empenho de capturar o criminoso.
        Todos sabem o que  a polcia nessas vastas e desertas provncias do interior, quo ineficaz e impotente  para punir e reprimir o crime. A polcia subalterna 
dos lugarejos, essa - coitada! - treme diante dos arreganhos de qualquer fanfarro avalentoado, quando no pactua com ele.
        O mais que pode fazer  levar o crime ao conhecimento do chefe de polcia, requisitando auxlio, que ele bem poucas vezes pode prestar. Seria mister um numeroso 
exrcito de policiais para varejar aquelas vastas e nvias matas  cata de criminosos. At que a denncia chegue s mos do chefe de polcia, j eles podem achar-se 
cem ou duzentas lguas do lugar do delito.
        Apesar disso, Afonso, com ser talvez o mais intrpido e o mais robusto e gil de quantos foragidos vagueiam por aquelas solides, no deixou de cair por 
vezes nas mos das escoltas policiais, tudo isso devido ao amor extremo que tinha s matas que o viram nascer, e s margens to caras do seu Parnaba, das quais 
no podia desapegar-se por muito tempo, como se vai ver pela continuao da presente histria.
        Na mesma noite em que Afonso chegou ao rancho, onde encontrou rediviva sua querida irm, levantou acampamento e desapareceu das matas do Parnaba com toda 
sua famlia, da qual da em diante nunca mais se separou. Tinha-se embrenhado no se sabe para onde. Talvez tivesse descido at o Paran, procurando os sertes de 
Mato Grosso. Talvez tambm tivesse subido por alguns caudalosos afluentes do Parnaba e demandasse as margens do majestoso Araguaia ou as florestas do Tocantins. 
Talvez mesmo, acompanhando o leito do seu rio querido at as suas nascentes, tivesse ganhado o vale do piscoso So Francisco, outro coito famoso de facnoras e bandidos. 
Talvez... enfim onde quer que houvesse matas e um grande rio interior achava-se bem. Varar todos esses sertes do interior para ele era o mesmo que passear por suas 
fazendas, e no encontrar a polcia em seu caminho; nenhum obstculo natural, a no ser o oceano, poderia estorvar-lhe a marcha. Era ou  ainda o Nemrod das florestas 
brasileiras.
        Depois de vaguear por alguns anos bem longe das ptrias ribanceiras, apertou-lhe por fim a saudade do seu Parnaba por tal forma, que no pode mais resistir-lhe.
        A nostalgia o consumia; aquele apego que tinha ao rio e s matas que o viram nascer, era nele um fanatismo. Vivia aborrecido e sem gostos, como outrora o 
hebreu exilado s bordas do Eufrates chorava saudades de Sio. Afonso, sentado  margem dos rios estranhos, no podia esquecer-se do seu querido Parnaba. Um dia, 
depois de estar a banzar triste e com a cabea entre mos, Afonso disse para a famlia, que se achava reunida em torno dele:
        - Minha gente, vocs querem saber de uma coisa?... Vamos embora para nossa terra. Isto por aqui no me toa, no. Meu corao est me dizendo que se ficarmos 
por aqui, alguma desgraa nos h de acontecer. Estou aflito por lavar o meu corpo n' gua do Parnaba;  l s que eu sou gente. O maioral de Gois j h de ter 
se esquecido de mim; e tambm, estando eu na beirada do meu rio, quem  capaz de me botar a mo? Eu caindo nas guas do Parnaba, vocs bem sabem,  o mesmo que 
cair nos braos de meu pai, ou de minha me. Vamos embora, minha gente; se l estamos mal, aqui pior.
        - Pronto! - responderam todos cheios de satisfao; e na mesma hora se puseram em marcha para as relvosas margens do undoso e turbulento Parnaba. A Afonso 
com a famlia de sua irm viveu algum tempo contente e tranqilo, sem ser incomodado e sem fazer mal a ningum, como era seu costume, pois era bondoso e pacato por 
natureza, e s fazia mal quando era provocado ou agredido. Mas, bem como nas cidades, nas selvas tambm no faltam delatores; a polcia teve conhecimento de que 
Afonso havia voltado s matas do Parnaba, e andava pelos municpios de Catalo e Santa Luzia; tratou de persegui-lo. Por largo tempo fez repetidas tentativas para 
captur-lo, todas infrutuosas.
        Afonso, quando mais seguro o julgavam, desaparecia como um duende, ou escorregava como uma trara.
        Tais proezas praticou, que ficou sendo tido por mgico ou mandingueiro. O povo supersticioso do serto o supunha filho das guas, e muitos at propalaram 
a lenda de que ele era filho de uma ndia com um monstro do rio, com um bicho d' gua, conforme a frase sertaneja.
        Estava Afonso com sua famlia na margem esquerda do Parnaba, no territrio de Minas. Achavam-se ali reunidos com ele bom nmero de caboclos, folgando e 
convivendo debaixo de um grande rancho aberto, ou casaro arruinado, talvez coberta de carros ou paiol abandonado, nas imediaes de uma fazenda sita no meio da 
mata, a pouca distncia da estrada que naquelas alturas comunica as duas provncias. Os fazendeiros de uma e outra margem conheciam bem a Afonso, estimavam-no mesmo, 
e portanto franqueavam-lhe tudo quando desejava e nenhum escrpulo nem receio tinham de asil-lo em suas terras.
        Dependurados dos caibros do rancho viam-se quartos de boi, onde cada qual, quando bem lhe parecia, metia a faca e cortava uma posta, que ia assar em um dos 
fogos que estavam acesos dentro e fora do rancho. Dois grandes panos de toucinho, lombos, pernas e entrecostas estavam estendidos sobre uma porta velha derrubada 
no cho, igualmente  disposio dos convivas.
        No meio do rancho um enorme caldeiro de feijo estava continuamente a ferver, pendurado a um gancho sustentado por trs estacas encruzadas  moda dos tropeiros. 
Via-se a um canto, onde ainda existia um resto de parede, um pipote de restilo11 com sua torneira, onde cada um ia encher o seu cuit12  discrio. Ressoava a viola 
e desde pela manh naquela boa e rude patuscada tocava-se, cantava-se, danava-se, cozinhava-se, comia-se, bebia-se, jogava-se e dormia-se tudo a um tempo, e promiscuamente. 
Afonso festejava o aniversrio do dia em que sua irm fora milagrosamente salva das garras de Toruna e das guas do Parnaba. 
        Era alta noite; a orgia esfriava e quase tocava o seu fim. Grande parte dos caboclos se haviam retirado; a maior parte dos que ficaram, por efeito do cansao 
e das repetidas visitas ao pipote, dormiam profundamente, estendidos sobre camadas de capim mombeca13 ou sobre o cho nu. Uma violinha cansada apenas se fazia ouvir 
l num canto junto a um fogo quase apagado. Somente Afonso e sua gente com mais dois outros convivas mais temperantes se achavam alerta conversando  roda do fogo.
        Sbito ouviu-se um apito, e logo outro e outro sucessivamente em roda do rancho. Era uma numerosa escolta, que dava sobre eles, e os cercava por todos os 
lados. Batista e seus dois filhos, que por esse tempo j eram dois robustos e vigorosos rapages, e outros dois ou trs companheiros se dispuseram a resistir.
        - Para que isso, meninos? - disse-lhes Afonso, com sua voz mansa e vagarosa. Eles tm muito povo e mesmo quando a gente possa fazer frente a eles, ns vamos 
ficar cada vez mais encalacrados com o maioral de Gois, que j no me gosta nada. Deixem-se ficar quietos; no se ponham a perder por amor de mim. Eu tenho de passar 
o Parnaba, no  assim?... pois deixem estar, que o meu rio no me deixa ficar mal.
        Mal Afonso acabava de proferir estas palavras, uma turba de soldados, entrando de tropel por todos os lados, os cercava e lanava as mos sobre Afonso, o 
qual unicamente levavam em vista prender.
        Sem a menor resistncia e sem dizer palavra, Afonso entregou os pulsos s algemas.
        A escolta pernoitou com o preso nesse mesmo lugar, e ao romper do dia se ps em marcha para o passo ou porto chamado Mo de Pau, que distava dali cerca de 
lgua e meia. Afonso ia escoltado por vinte homens armados dos ps  cabea, uns a p e outros a cavalo e bem montados; cercado daquela muralha viva no podia haver 
receio de que ainda pudesse escapar.
        Chegados  beira do rio foi foroso esperar a barca, que estava amarrada na margem oposta, onde existia a casa da recebedoria, um casebre servindo de quartel 
ao destacamento e um ranchinho, morada do barqueiro e seus remeiros.
        Nem todos os leitores tero uma idia justa do que  uma barca dessas com que se faz a travessia dos rios de nossos sertes; portanto no seria intil que 
delas lhes demos aqui uma ligeira descrio.
        Constam de trs canoas colocadas paralelamente com a conveniente distncia e ligadas entre si por um tablado, que lhes corre por cima. Este tablado costuma 
ser para maior segurana rodeado de um parapeito. So tocadas a dois remos e a vara ou varejo nos lugares de pouco fundo. Os remeiros sentam-se na popa das canoas 
laterais, que sobram trs ou quatro palmos para fora do tablado. No do centro est o leme, enorme e pesada p, para cujo manejo  preciso um truculento e robusto 
caboclo. Estas barcas podem passar de uma vez sete ou oito animais de carga com todo o seu carregamento, e outras tantas pessoas. O trajeto no deixa de ser demorado 
e trabalhoso.
        Quando a barca chegou, Afonso pediu licena para beber uma pouca de gua. Quiseram dar-lha em uma cuia; mas ele recusou dizendo que queria beber gua do 
rio apanhada com suas prprias mos. Ento ele chegou-se para a beira do rio, tendo sempre unidos a si dois soldados alertas a qualquer movimento que fizesse; parecia 
que at tinham medo que ele se sovertesse pelo fundo das guas.
        Afonso, assim mesmo com as mos algemadas, abaixou-se de bruos sobre o rio, bebeu alguns goles de gua, tomou tambm um pouco nas mos e benzeu-se com ela, 
murmurando entre si: ah! meu rio! ainda desta vez no me deixes ficar mal!
        - Oh! oh! exclamou um dos guardas observando aquilo, bem me diziam que este bicho  mandingueiro. No viste o que ele acaba de fazer? 
        - Oh! se vi! acudiu o outro; estava rezando sua orao de caborgeiro14, mas deixe-o por minha conta, que desta vez no lhe h de valer de nada a mandinga. 
Ento, meu melro, acrescentou voltando-se para o preso,  certo que voc tem parte com o diabo?
        - Com o diabo, no senhor, respondeu Afonso sorrindo com seu ar bonacho, com Deus e a Virgem Maria, isso sim!
        - Com Deus ou com o diabo, desta vez eu te juro que no nos hs de escapar. Vamos, minha gente!...toca a embarcar.


VIII




        Era quase meio-dia. A tempestade roncava temerosa para as bandas das cabeceiras do rio, que comeava a engrossar com assustadora rapidez, arrastando na torrente 
turva e impetuosa grossos troncos e enormes galhadas de rvore.
        - Bom! disse Afonso consigo, o meu Parnaba j comea a ficar zangado por me ver em trabalhos. Alguma ele quer fazer para me livrar.
        A tempestade no era motivo suficiente para retardar a marcha; toda aquela gente estava muito avezada a passar rios cheios. Apesar, pois, da enchente, que 
comeava a assoberbar as margens de modo pavoroso, apesar dos enormes troncos e rumas de coivaras, que vinham de roldo pela gua abaixo, soltaram a barca e a impeliram 
para o meio do rio.
        Afonso ia em p no meio do tablado, fechado dentro de um crculo de soldados. Tinham receio - e ele era bem capaz disso - que se atirasse n' gua, e se salvasse 
a nado, mesmo algemado como estava. Quando iam chegando justamente ao meio do rio, um tronco gigantesco, com suas galhadas erguidas ao ar  semelhana de garras 
de um monstro aqutico, vinha, com assustadora violncia, investindo direito sobre a barca, que a muito custo rompia  fora de remos a extraordinria correnteza 
das guas. Ouviu-se um grito de alarma; a palidez do pavor pintou-se em todos os semblantes, e ningum reparou num riso de ntima satisfao que nesse momento iluminou 
a fisionomia do caboclo prisioneiro. Os soldados atarantados e cheios de susto iam daqui para ali remoinhando sobre o tablado sem atinarem com o que deviam fazer. 
Dois deles, porm, mais atilados e resolutos, ao grito do mestre da barca, pegaram nos varejes e puseram-se em atitude de esperar e desviar na ponta deles o tronco, 
que vinha direito abalroar em cheio sobre a barca, e faz-la soobrar irremissivelmente. Assim o conseguiram com efeito, e da a um instante, entre imensa celeuma 
de triunfo e de alegria, o tronco descia vogando majestosamente ao lado da barca a uma braa de distncia. Naquela crise de confuso e pavor os soldados tinham-se 
esquecido de Afonso, e o crculo, dentro do qual se achava encerrado, tinha-se desmanchado. Afonso de um passo ganhou a borda da barca, e firmando um pulo de assombrosa 
preciso, foi cair em p em cima do tronco, sobre o qual no mesmo instante deixando-se escorregar achou-se sentado muito a seu cmodo. Quem visse aquele vulto colossal 
sentado sobre um tronco boiando tranqila e majestosamente  merc da torrente, cuidaria ver o gnio do rio sobre o seu trono flutuante, governando com o gesto e 
com o olhar as revoltas e turbulentas ondas.
        Os soldados, a princpio atnitos e assombrados com semelhante rasgo de agilidade e de coragem, ficaram de boca aberta contemplando aquele curioso espetculo. 
Em breve, porm, caram em si e lembraram-se do seu dever, mas que poderiam eles fazer naquelas circunstncias? Alguns de entre eles levaram a arma ao rosto, querendo 
atirar sobre o fugitivo.
        - Alto l! bradou o comandante, levando a mo ao cano da arma de um, que lhe estava prximo e fazendo-a baixar. Alto l... no sabem que no h ordens de 
atirar a quem foge?...
        Os soldados abaixaram as armas, e Afonso, sobre seu tronco flutuante, continuou a boiar serenamente rio abaixo, lanando sobre seus perseguidores um olhar 
triunfante envolto em um sorriso de mofa.
        Quando a barca, rompendo a muito custo a torrente cada vez mais entumecida e violenta, pode atracar  outra margem, j Afonso com seu tronco tinha desaparecido 
h muito na primeira volta do rio.
        Era tempo perdido querer persegui-lo. Quer por gua em alguma canoa, quer costeando o rio atravs de uma selva espessa e emaranhada, era impossvel tornar 
a pr-lhe as mos.
        Entretanto, Batista e seus dois filhos, que acompanhavam a escolta, e que tudo haviam presenciado, apenas Afonso saltara sobre o tronco haviam corrido pela 
margem oposta, escondidos pelo mato; e lanando mo de uma pequena canoa de pesca, que tinham mais abaixo, foram em socorro de Afonso e o puseram a salvo.
        Cerca de um ano mais tarde ainda Afonso se deixou colher nas redes da polcia, que no cessava de persegui-lo. Teve lugar a captura nas imediaes do pequeno 
arraial do Vaivm, situado como a dez lguas da vila do Catalo. Afonso, como era seu costume, no quis opor resistncia alguma  priso, podendo t-lo feito talvez 
com vantagem. A escolta com o preso tinha de passar o rio Verssimo, confluente do Parnaba. O passo do rio  justamente no lugar onde o Verssimo se encontra com 
outro ribeiro igualmente caudaloso, e que tem o nome de Brao.
        A, porm, no h barca; a passagem se efetua em uma pequena e estreita canoa, passando-se os animais a nado.
        - No tem perigo! murmurou consigo Afonso: se no estou no Parnaba, estou nos braos dele. Deus e o meu rio ainda desta vez me ho de valer.
        Os soldados da escolta, j escarmentados com as proezas de Afonso, cuja fama andava de boca em boca por toda a provncia de Gois, desta vez o puseram na 
canoa amarrado de ps e mos.
        O cu estava puro, e o sol vibrava raios abrasadores; mas para o lado das nascentes dos dois rios o horizonte estava carregado; fuzilava e ouvia-se o ronco 
de uma trovoada ao longe. Os dois rios comeavam a tomar gua, arrastando na corrente encapelada e impetuosa quanto pau e coivaras encontravam pelas ribanceiras.
        - Estes meus rios, disse Afonso consigo, criando alma nova, estes meus rios no podem me ver em apertos, que no se zanguem e no me venham trazendo suas 
canoas para me valerem.
        Seis soldados embarcaram-se com Afonso, que ia sentado no fundo da canoa justamente no meio deles.
        Com o remador que ia sentado  popa, eram oito pessoas ao todo.
        Afonso ento ps em prtica uma pardia viva do feito de Sano no tempo dos Filisteus, porm com mais feliz resultado. Atado de ps e mos, quase nenhuma 
esperana lhe restava de salvar-se com vida, e era somente a confiana fantica que depositava na proteo de seu rio natal, que ainda lhe dava algum alento ao corao.
        A pequena canoa calava extraordinariamente, e apenas conservava fora d' gua meio palmo de bordo, quando muito.
        Chegando bem no meio do rio, Afonso, resolvido a perecer com quantos o escoltavam, calcou fortemente com todo o peso do seu corpo agigantado sobre um dos 
bordos da canoa e a fez emborcar, despejando n' gua toda a carga de passageiros.
        O rio crescia de momento a momento e a correnteza tornava-se cada vez mais impetuosa. Dos desgraados que se achavam na canoa com Afonso, apenas dois mais 
felizes ou mais robustos nadadores puderam escapar.
        Afonso, nadando aos arrancos e dando corcovos como um boto, com grande custo conseguiu alcanar um dos muitos troncos que rodavam rio abaixo, e, atravessando-se 
por cima dele, deixou-se levar pela torrente. Seu cunhado e seus dois sobrinhos, que sempre o acompanhavam, j estavam apercebidos, e  sua espera escondidos na 
primeira curva do rio, e metendo-se a nado o puseram salvo em terra.


IX


        Abaixo da vila de Catalo, umas vinte e tantas a trinta lguas, no municpio de Santa Luzia, o rio Parnaba despenha-se em uma cascata magnfica, cuja existncia 
se denuncia muitas lguas ao longe, por seu perptuo e montono estrugido. 
        Esta catarata, que tem o nome de Cachoeira Grande,  uma das mais belas e curiosas quedas d' gua que existem na Amrica do Sul, e tambm uma das menos conhecidas.
        O rio, depois de cerca de uma lgua de curso rpido e silencioso, encanado em um leito igual e quase reto, como por uma bicha de ferir, vai precipitar-se 
de chofre e de um s jato com pavoroso estrondo em um abismo de mais de seis braas de profundidade. Embaixo as guas expandem-se em um vastssimo tanque, cujas 
ondas agitadas pelo choque poderoso da enorme queda empolam-se e estiram-se frementes pelas bordas, para prosseguirem da em diante mais tranqilas e serenas a sua 
viagem atravs das matas da solido.
        Em uma e outra margem corre uma larga praia arenosa semeada de grandes rochedos negros. Essa praia  fechada pela floresta, cujos troncos e galhos cobertos 
de limo verde e de musgos pendentes, em razo do chuvisco perene que a catarata espalha na atmosfera, esto sempre a gotejar como as barbas de um velho Trito. Faz 
horror avizinhar-se do medonho boqueiro em que o rio despenha. Parece que estremecem as entranhas da terra, que o mundo desconjuntado est desabando no meio de 
uma horrorosa trovoada. O que h, porm, de mais curioso na dita cachoeira,  uma gruta que a existe mesmo por baixo da catarata, gruta singular, nica, estranha, 
cuja abboda  formada de um lado pela rocha solapada, e do outro pela enorme coluna de gua que se despenha das alturas. S o encarar de perto aquela tremenda furna 
de gua e pedra, dentro da qual parece que ruge medonha a voz do gnio da destruio, causa pavor. Penetrar nela  empresa arriscadssima, a que rarssimos se tm 
aventurado. Alm de tudo, a entrada  por cima de rochedos desiguais, lisos e escorregadios, o que torna o ingresso ainda mais perigoso e quase impossvel. 
        Dizem que  profunda e espaosa e que no falta muito para varar do outro lado do rio. Se de feito varasse, teramos um tnel de natureza especial, nico 
e assombroso.*
        Outra curiosidade tambm notvel  a prodigiosa abundncia de peixe, que h embaixo da Cachoeira Grande. Na estao prpria v-se pelas bordas o veio do 
rio literalmente coalhado de peixes de variadas espcies e tamanhos, a ponto que nos lugares rasos no  difcil peg-los  mo.  curioso de ver-se aquelas mirades 
de peixes dando saltos ao ar, fazendo reluzir ao sol escamas de ouro e prata, de azul e de carmim, e esforando-se inutilmente para galgar a cachoeira e subir guas 
acima.
        Acontece muitas vezes que, errando o salto, ou esbarrando nos rochedos, eles vm cair em seco, de maneira que ali quase no  preciso anzol nem rede, nem 
outro qualquer artifcio para se obter pescado com abundncia.
        Essa extraordinria afluncia de peixe naquele lugar  devida a um fenmeno que se observa em todos os nossos rios e talvez em todos os rios do mundo.
        Os peixes do rio, como as andorinhas do ar, vivem em constantes e peridicas emigraes. No tempo da seca com a baixa das guas todo o peixe do curso superior 
do rio, ou deixando-se levar pelas corredeiras, ento mais violentas, ou procurando uma temperatura mais agradvel, ou por outro qualquer motivo que ignoro, viaja 
continuamente guas abaixo.
        Quando vem a estao das chuvas e que as guas, trs ou quatro vezes mais abundantes, disfarando e quase fazendo desaparecer os saltos e cachoeiras, lhe 
permite subir com facilidade, arrepia carreira e volta guas acima em cardumes inumerveis ou em busca de alimento, que lhes falece no curso inferior do rio, ou 
querendo talvez voltar a seus ninhos conhecidos.
        Quando alguma grande cachoeira ou salto, que no podem superar, lhes embarga a marcha, tem lugar ento essa extraordinria aglomerao de peixe em um s 
ponto, como acontece na Cachoeira grande.  por essa razo que o Parnaba  to escasso em peixe na parte superior a essa cascata. Quase todo o peixe que se cria 
nessas regies, no tempo de seca desce a cachoeira e nunca mais pode subir.
        Na quadra da subida do peixe muitas pessoas com suas famlias acodem s imediaes da Cachoeira Grande pelas fazendas vizinhas, onde vo regalar-se de fresco 
e saboroso peixe, e fazer dele abundante proviso.
        Tambm grande nmero de caboclos, desses nmades semibrbaros que vivem por aquelas matas, costumam levantar seus ranchinhos  beira do rio junto  cascata, 
e levando apenas sal, pimenta e aguardente, comendo peixe e tocando viola, ali passam semanas e semanas folgando em santo cio.
        Afonso era um dos fregueses certos da Cachoeira Grande, que conhecia desde criana. Quando estava no vale do Parnaba, nunca deixava de ir ali no tempo prprio 
passar uma boa temporada com sua famlia.
        Tendo conhecimento desse fato, a polcia de Gois, alguns anos depois da ltima evaso de Afonso, entendeu que no podia haver melhor ensejo para o colher 
ainda uma vez em suas redes, e na quadra prpria expediu da capital em diligncia, para prend-lo, uma numerosa escolta que foi postar-se cautelosamente em observao 
nas imediaes da Cachoeira Grande.
        Afonso estava deitado sobre uma esteira de buriti,  sombra de seu rancho, dormindo tranqilamente a sesta ao rugido estrugidor da catarata, quando foi despertado 
subitamente ao grito de - patrulha, patrulha!... foge, foge Afonso! so muitos!... estamos perdidos!...
        Afonso levantou-se com todo o sossego.
        - Que  deles?... j esto a?... perguntou com a maior calma.
        - J!... j esto pertinho. Foge, Afonso; depressa, seno ests perdido.
        - Qual perdido!... vocs no esto vendo que eu estou na beira do Parnaba? Deixem que venham e fiquem sossegados.
        Mal Afonso teve tempo de pronunciar estas palavras, j os soldados estavam apenas a alguns passos de distncia.
        Ento Afonso, sem mais outra arma que uma comprida manguala15, correu para junto da cascata, que ficava como a uns duzentos passos do lugar onde tinha o 
seu rancho, e foi postar-se  entrada da extraordinria lapa formada de granito e gua, de que acima falamos. Como os soldados se aproximavam, voltou-se para trs 
e com um aceno de cabea e um sorriso de inexplicvel expresso apontou para a gruta como que convidando-os a que o acompanhassem.
        Imediatamente, sem dar tempo a que lhe pusessem a mo, firmando-se em sua mangoala foi caminhando com p firme sobre os rochedos escorregadios, e, entrando 
tranqilamente pela horrenda lapa adentro, sumiu-se nas anfractuosidade do rochedo. Os soldados viram pasmados o vulto colossal de Afonso desaparecer como espectro 
naquela pavorosa espelunca, e em seu assombro pensaram estar  porta de um inferno de guas do qual aquele fantasma era o rei onipotente. 



        
X

       Apenas restabelecidos do seu primeiro e profundo pasmo, os soldados voltaram-se uns para os outros, como que interrogando-se sobre o que deveriam fazer. Um 
deles, mais audaz, querendo aventurar alguns passos para penetrar na lapa, ou ao menos devassar com a vista o recanto em que Afonso se escondera, escorregou, caiu 
e esteve por um nada a rodar no abismo das guas, arrebatado pela catarata. Nenhum mais ousou dar um s passo para diante, nem para fazer a mnima tentativa para 
entrar na medonha furna.
        Vendo, pois, que lhes era impossvel o ingresso naquele horrendo esconderijo, depois de deliberarem por alguns minutos, resolveram que o melhor partido a 
tomar naquela conjuntura era ficarem de p firme, fazendo sentinela viva  entrada da lapa, at que o fugitivo se resolvesse a sair ou ficasse l dentro morto de 
fome e frio. Nesse desgnio expediram dois companheiros  fazenda mais prxima, a fim de irem procurar alguma proviso de boca, ao menos sal, farinha e toucinho, 
pois havia peixe de sobra para abastecer-lhes fartamente a cozinha.
        E, portanto, ali estabeleceram seu embarracamento, mui anchos e contentes, aplaudindo a sua fortuna e dando graas a Afonso, que depois de longas e penveis 
marchas lhes proporcionava ocasio de descansarem e regalarem-se de peixe por alguns dias  beira da Cachoeira Grande. Vendo o peixe em cardumes acudir s praias 
e vir saltando cair debaixo de seus ps, aquela soldadesca faminta, cansada e estropiada, ficou animada e alegre como o povo de Deus quando, depois de sofrer no 
deserto todos os horrores da fome e da sede, viu chover man do cu e rebentar gua do rochedo.
        - Que belo! heim, camarada! dizia um deles no auge do entusiasmo, haja cachaa, sal e farinha, que estou pronto a ficar aqui toda a minha vida.
        - Tambm por minha parte pode Afonso ficar l dentro de sua lapa quanto tempo quiser, que eu no darei o cavaco, antes lhe ficarei muito obrigado.
        - E que vidinha no h de o tratante estar passando l dentro! s aquele medonho barulho d' gua  capaz de matar a gente.
        - Vocs pensam que ele  capaz de agentar-se l por muito tempo?... no h de tardar muito a espirrar para fora: vocs vero.
        - Sim, mas  preciso cuidado e olho vivo; ele corre que nem uma ema.
        - Em todo o caso permita Deus que ele de l no saia to cedo e que ao menos nos d tempo de tomar um farto de peixe.
        - E quem sabe se o demnio no escorregou por essas bibocas e no est h muito tempo na barriga dos peixes?...
        - Afonso na barriga dos peixes?... o que voc est dizendo?... o mais certo  ele estar j so e salvo a por esse mato, rindo-se de ns que estamos como 
patetas guardando uma lapa vazia. Eu conheo muito esse ndio Afonso; ele tem parte com o diabo.
        - Ah! ah! atalhou um com uma grande gargalhada.
        - No serei eu que hei de engolir essa! pois quem cai ali pode escapar? v contar essa mais adiante, que aqui no pega.
        - Como no h de escapar!... se quando ele cai n' gua, vira peixe!... quer vocs me creiam, quer no creiam, eu j vi com estes olhos que a terra h de 
comer.
        - Se vira peixe, ou no, isso eu no sei; mas que o tratante  encantado e mandingueiro mestre, eu afiano. Se no fosse isso, como  que caindo amarrado 
de ps e mos no meio de um rio como  o Verssimo e de mais a mais cheio, pode escapar com vida?...
        - Pois se ele no  filho de gente!... esse povo por a costuma dizer que ele  filho de uma gentia com um bicho d' gua, e se eu duvido, macacos me mordam.
        - Oh! oh! oh! essa ainda  melhor! pois eu juro que desta vez o seu pai d' gua no lhe h de valer.
        - E eu aposto quanto quiserem que nem vivo nem morto nunca mais ele sai daquele buraco.
        - Deveras, camarada! melhor para ns; os anjos te falem pela boca... porque no fim de contas, quer ele esteja l dentro, quer no, ns no temos remdio 
seno aqui ficarmos de planto ao menos oito dias para a gente poder ter certeza de que, se ele l est dentro, est morto e bem morto. E nesse caso, minha gente, 
viva a alegria, e toca a folgar e a comer peixe.
        - Apoiado! apoiado! - bradaram todos a um tempo.
        - Viva o ndio Afonso! - exclamou um, empunhando um cuit de cachaa.
        - Ou morra - acudiu o outro, contanto que no saia da toca.
        - Apoiado! apoiado! muito bem! bradaram todos.
        Os estilos parlamentares so hoje conhecidos  e empregados por todo o mundo e at nos mais remotos sertes.
        Esta conversa era gritada pelos soldados com toda a fora dos pulmes, para que se pudesse ouvir no meio do medonho estrugido da catarata, e toda aquela 
algazarra mesclada ainda ao estuar das guas pelas areias da praia, aos gritos roucos e estridentes dos gavies de penacho, que esvoaavam sobre o rio, dando caa 
aos peixes, ao rugido dos ventos aoitando a grenha das florestas, aos alaridos e cantarolas de uma multido de caboclos, que se achavam derramados por uma e outra 
margem, pescando e divertindo-se, formavam a mais singular e monstruosa orquestra que se pode imaginar. 
        Durante esse dia a escolta manteve continuamente  entrada da gruta sentinela ativa e vigilante.
        Chegada a noite acenderam uma grande fogueira, e dobraram de cuidado e vigilncia; quatro sentinelas sempre alerta, postadas  menor distncia possvel da 
catarata, fizeram constantemente o bloqueio da pavorosa furna.
        Enfim o dia amanheceu e Afonso no dava sinal de si.
        Os soldados, avizinhando-se o mais que podiam da boca da gruta, gritavam por Afonso com toda a fora de seus pulmes, e nem um eco ao menos respondia l 
de dentro.
        - Ento? que dizia eu?... cortem-me a cabea, se o malvado ainda est a dentro, e se j no anda bem fresco por esse mato.
        - Fresco talvez ele esteja, mas Deus me livre tal frescura!... se no responde,  porque o diabo o levou por esse rio abaixo... Olha, rapaz, repara como 
a gente dele est sempre a olhar para c aflita e desassossegada... Se Afonso j se tivesse safado, nem eles estariam ali mais.
        - Qual! esto fazendo seu papel para dar tempo a que ele tome larga...
        - Tudo pode ser; mas enfim enquanto isto no se decide, toca a folgar e vamos ao peixe.
        De feito tambm de sua parte a famlia de Afonso, que no se havia arredado do lugar em que se achava arranchada, olhava continuamente para o lado da gruta 
com ansiedade e inquietao. Tambm eles ignoravam qual o desgnio que Afonso tinha em vista indo se esconder naquela horrenda e pavorosa espelunca, pois que ele 
no tivera tempo de lhes dizer coisa alguma a esse respeito.
        Tambm eles tinham velado a noite inteira percorrendo e explorando com todo o cuidado longa extenso da margem do rio a ver se Afonso vivo ou morto lhes 
aparecia.

XI

        Era meio-dia. O sol, sempre abrasador naquelas paragens, ainda mesmo nos meses de maio e junho, mormente  beira dos grandes rios, dardejava seus raios do 
alto da esfera azul e serena, tingindo de variegados reflexos os enormes rolos de espuma da cachoeira, e reverberando uns vivos e deslumbrantes lampejos sobre a 
colossal espadana16 como sobre uma lmina de ao polido.
        Os soldados estendidos pela praia, uns dormiam, outros assavam e comiam peixe, outros jogavam o pacau17 sobre uma pedra, outros, estendidos de barriga para 
o ar sobre a areia, fumavam olhando para o cu, enquanto dois sempre vigilantes, e a p quedo, tinham os olhos pregados na entrada da lapa.
        - Meu Deus! que estar fazendo Afonso at esta hora dentro daquela maldita furna?!...
        Isto  dizia Caluta, sentada sobre uma pedra  beira do rio, com o rosto apoiado sobre as mos, abanando tristemente a cabea, e com os olhos fitos na carata, 
a seus dois filhos, que ali estavam em p junto dela.
        - Queira Deus! queira Deus! - continuou ela. - Queira Deus desta vez no lhe acontea alguma desgraa! Aquilo ali  to perigoso!... Deus sabe se no caiu 
dentro da cachoeira!...
        - No se aflija, minha me; meu tio bem sabe o que faz. Desde criana ele conhece esta cachoeira e sabe de todos os seus recantos.
        - Sossegue seu corao, minha me; Vmc. bem sabe que, enquanto o tio Afonso estiver no Parnaba, no corre risco de qualidade nenhuma.
        Isto diziam os dois rapazes para consolar e tranqilizar sua me, enquanto eles mesmos do fundo d' alma nutriam bem srias inquietaes a respeito da sorte 
de seu tio.
        Nesse momento ouviu-se do outro lado do rio um assobio agudo, estridente e fortssimo.
        Todos imediatamente, soldados e caboclos, volveram os olhos para a outra margem.
        Em p, de braos cruzados, sobre um rochedo  beira do rio se via um vulto colossal olhando com ar risonho para a margem fronteira.
        Era Afonso.
        Como porm ele pudera escapar daquela espelunca formidvel, eis o que at hoje ainda no  bem lquido. Uns pretendem que aquela lapa tenha um respiradouro, 
que comunica com a parte superior da cachoeira, respiradouro s conhecido dos caititus, das serpentes e de Afonso, e que fora por a que ele se salvara. Outros querem 
asseverar que, penetrando pela furna adentro h um lugar, em que a coluna de gua despenhada se adelgaa consideravelmente e que Afonso com sua extraordinria fora 
e agilidade varando-a de um salto se arrojara sobre os borbotes de espuma e ganhara a nado a outra margem durante a noite. Outros afirmam que Afonso, resolvido 
a morrer antes do que a entregar-se, confiado somente em Deus, na fora de seu brao e na proteo de seu rio, atirou-se  toa no tremendo boqueiro durante a noite, 
e que por um feliz acaso as ondas revoltas o puseram fora de perigo sem o ofender.
        Fosse como fosse, o certo  que um sentimento ao mesmo tempo de pasmo e de desapontamento se apoderou dos soldados, enquanto um grito de indefinvel alegria 
rompia dos lbios de todos os membros da famlia de Afonso.
        - Adeus, minha gente! at outra vista! - bradou Afonso do outro lado, saudando com a mo e com um sorriso de alegre ironia.
        Os soldados, vendo que no era possvel passar para o outro lado para perseguir Afonso, visto que ali no havia nenhuma canoa seno a grande distncia, trataram 
de arrumar suas mochilas, e corridos e desapontados foram se retirando, dando Afonso a todos os diabos, no tanto por lhes ter escapado das unhas, como por no lhes 
ter dado tempo suficiente para vadiarem e fartarem-se de peixe  borda da cachoeira.
        - Diabos me carreguem, iam eles murmurando entre si - se eu tenho mais vontade de entrar em diligncia para prender semelhante maldito.
        - Cruz!... Ave Maria!... o velhaco parece que  mesmo encantado.
        - Ah! j vocs acabam de crer!... heim?... eu no dizia que ele tem parte com o diabo?...
        - Qual parte, nem meia parte com o diabo!... ele  o diabo!... ele  o diabo em pessoa.
        - Com a diferena de que o inferno dele, em vez de ser de fogo,  de gua.
        -  o demnio das guas.
        Os leitores tero depreendido desta minha verdica histria que o ndio Afonso no  um facnora, mas sim um homem de bem, cheio de belas qualidades e sentimentos 
generosos, porm vivendo quase no estado natural no seio das florestas, em luta a um tempo com os bandidos e facnoras que o rodeiam, com a natureza selvtica e 
as feras do serto, e com a polcia que o persegue.  essa vida rude e agitada que lhe tem desenvolvido a um ponto extraordinrio a astcia, a valentia e a robustez 
prprias de sua natureza.
        Naqueles desertos, no fundo daquelas imensas florestas, onde a ao da justia social  quase nula, o homem, por mais inofensiva que seja a sua ndole, v-se 
muitas vezes forado a defender-se contra seus semelhantes, como quem se defende das onas e das serpentes.
        Todavia no consta que Afonso tenha cometido outro homicdio a no ser o que deixamos narrado nesta histria. Se se excedeu um pouco na crueldade da vingana, 
 porque idolatrava sua irm e estava aceso em clera, e somente a justia social tem o privilgio de ser fria e impassvel na aplicao da pena.
        Reconhecendo isto talvez, e desanimada de poder capturar o terrvel caboclo, a polcia de Gois parece que o largou de vista, e Afonso, se bem que sempre 
desconfiado e alerta, continua a passear livremente pelas florestas do Parnaba.
        O heri deste conto, h dez anos, era vivo e moo ainda.  de crer que ainda exista, e que a esta hora tenha j fabricado novos assuntos para histrias, 
como esta que acabo de contar. Enquanto, porm, no chegam ao meu conhecimento, prometo s amveis leitoras contar-lhes em breve alguma histria que seja menos bronca 
e selvtica do que esta que acabam de ler. 


SOBRE ESTA EDIO


        Para este o estabelecimento de texto do romance O ndio Afonso utilizamos como referncia:

GUIMARES, Bernardo. Quatro Romances. So Paulo:Livraria Martins Editra, 1944.

        Tal fato se justifica pela impossibilidade de localizar uma edio definitiva, sobre a qual pudssemos trabalhar. Acreditamos, porm, ser o texto bastante 
confivel, uma vez que mantm certas caractersticas das edies de obras de Bernardo Guimares, editadas no sculo XIX, a exemplo do uso de minsculas aps reticncias, 
interrogaes e exclamaes. 
        Alm das atualizaes ortogrficas usuais, mantivemos poucas palavras no dicionarizadas, uma vez que as mesmas se auto-explicavam pelo contexto. Em casos 
em que a expresso oral se mostrava prxima da forma verncula, conservamo-la, apenas explicando-a em nota de rodap. 




Perfil biogrfico





        Bernardo Guimares nasceu em 1825, em Ouro Preto (MG), e faleceu na mesma cidade em 1884). Pertenceu a uma famlia de escritores, da qual o germe inicial 
foi seu pai Joo Joaquim da Silva Guimares. Seu irmo, o tambm poeta Manuel Joaquim da Silva Guimares (Padre Arax), foi mais um importante estmulo, fato reconhecido 
e salientado por ocasio de sua morte, em 1871, quando Bernardo  se preocupou em lhe registrar os poemas inditos, alm de ter-lhe concludo alguns versos incabados. 
Dentro da mesma tradio literria familiar  salientam-se Alphonsus de Guimaraens, Joo Alphonsus, Alphonsus de Guimaraens Filho e Afonso Henriques Neto (poeta contemporneo). 
        Ainda na Faculdade de Direito de So Paulo, fez parte da Sociedade Epicuria, juntamente com Aureliano Lessa e lvares de Azevedo, grupo bomio que deu incio 
ao ultra-romantismo no Brasil. Apesar desse envolvimento, sua primeira produo potica, Cantos da Solido (1852), ainda surge marcada pelo sentimentalismo ligeiro 
das geraes anteriores. 
       O esprito irreverente do grupo, ainda pouco observado em na obra inicial, vai posteriormente ser plenamente desenvolvido em poemas satricos e erticos hoje 
bastante cultuados pela crtica, tais como  "Dilvio de Papis", "A Orgia dos Duendes", "O Elixir do Paj", e "A Origem do Mnstruo". Os dois ltimos, por seu carter 
bastante despudorado para os padres da poca, circularam apenas de forma clandestina durante o sculo XIX. Nas stiras, Bernardo se distancia, e muito, da produo 
potica do tempo. Tais textos, claramente pardicos, evidenciam uma crtica contundente  literatura produzida na Corte, excessivamente voltada para os galanteios 
mundanos e ideologicamente comprometida com o projeto nacionalista do Instituto Histrico e Geogrfico Brasileiro.
       Em "O Elixir do Paj", Bernardo contrape  imagem do ndio herico e smbolo da nacionalidade um velho paj impotente que, graas ao auxlio de um mgico 
e poderoso elixir recupera-se, entregando-se a orgias sexuais. J  primeira leitura, percebemos no texto uma pardia ferina a "I-Juca Pirama", no s pelo uso de 
ritmos que evocam aqueles usados por Gonalves dias, como tambm por uma interpretao ertica do tema da antropofagia. 
       Em  "Dilvio de Papis", observamos Bernardo desenvolver um dos temas mais recorrentes da modernidade do sculo XIX com especial originalidade. Nele, um poeta 
e jornalista, acometido de um delrio, v sua musa, colrica, provocar o apocalipse ao recobrir o mundo inteiro com folhas de jornal. Podemos perceber, nos  versos 
contundentes, o impacto produzido pela imprensa popular junto aos meios literrios: se o poeta romntico busca a originalidade e a liberdade expressiva, v tambm 
sua produo literria ameaada pela mediocridade das atividades jornalsticas cotidianas que lhe garantem a sobrevivncia. Instaura-se o conflito entre o cosmopolitismo 
modernizante da corte e a busca de inspirao na natureza. Em "Saia Balo" tal confronto tambm est presente, mas de forma atenuada, por meio de uma crtica lisonjeira 
aos modismos de salo. 
        Talvez o poema mais controvertido de Bernardo Guimares seja "A Orgia dos Duendes". Ora lido como mais uma de suas produes erticas, ora visto como mais 
uma das "convulses" macabras do ultra-romantismo. 
       Se a poesia de Bernardo Guimares encontra acolhida apenas entre especialistas, j sua prosa tem merecido constante ateno dos leitores brasileiro, especialmente 
seus romances, sempre narrados em uma linguagem fluente e rica em traos de oralidade, fato este que propicia uma identificao maior com o pblico a que se destina. 
Mais conhecido por A Escrava Isaura (1875), obra adaptada para a televiso, produziu, no entanto dez romances, tratando de diversos temas, tais como o celibato clerical, 
a religiosidade popular, a condio indgena e, em especial, aspectos da histria do Brasil, presentes principalmente em Maurcio (1877) e O Bandido do Rio das Mortes 
(publicado postumamente em 1904). 
        Apesar da popularidade tal prosa  vista com reservas pela crtica acadmica. Merece referncias quase que unicamente por ter inaugurado, juntamente com 
Franklin Tvora, a tendncia  regionalista do romance brasileiro, ao publicar, em 1869, O Ermito do Muqum. A obra, muito citada e pouco lida,  narra a fundao 
de uma romaria em Gois, a partir do relato de um romeiro, efetuado durante o transcorrer de uma viagem pelos sertes de Minas e Gois. 
        Considerada excessivamente impregnada de recursos prprios das narrativas populares orais, a produo romanesca de Bernardo Guimares sofre considervel 
depreciao, frente as obras de  de outros autores romnticos; no entanto, podemos perceber que seu projeto esttico muito se assemelha ao de Jos de Alencar, ou 
seja, a busca de uma linguagem brasileira que propicie condies da criao de uma literatura realmente nacional. Talvez tal aspecto no seja observado pela crtica 
especializada pelo fato de o romancista mineiro ter se expressado a partir do portugus cotidiano de sua regio, bastante diferenciado daquele utilizado no Rio de 
Janeiro. 
        Tambm os elementos temticos abordados pelo autor sofrem considervel depreciao. So constantes as aluses a uma certa ingenuidade, tramas simplistas 
e aucaradas, personagens mal esboados. Nota-se, em tais comentrios, uma recorrncia de exemplificao a partir de A Escrava Isaura, obra que talvez merea algumas 
dessas crticas, mas que trata da escravido de maneira indita at ento. O fato de ter caracterizado sua herona como mulher de educao refinada e pele alva torna 
Bernardo muitas vezes alvo de acusaes de preconceito e racismo. A partir de uma viso mais contextualizada, porm, percebemos que o romancista fez uso de uma situao 
freqente em fins do sculo XIX. E o fez deliberadamente, uma vez que, ao dar a condio de escrava a uma mulher "branca", nos mostra que o problema da escravido 
no Brasil no se restringia unicamente  cor da pele, mas a um sistema econmico e poltico anacrnico, que permeava todas as relaes sociais.
        Romances fundamentais para a compreenso da irreverncia presente na obra de Bernardo Guimares, infelizmente, andam bastantes esquecidos. Salientamos, especialmente, 
O Seminarista, publicado em 1872, momento em que a chamada "questo religiosa" tornara ainda mais tensas as relaes entre Igreja e Estado. Trata-se de uma obra 
corajosa, considerando-se que Minas Gerais,  poca, notabilizava-se pelo conservadorismo do clero. Tambm merecem destaque seus romances histricos, j mencionados, 
nos quais trata da Guerra dos Emboabas  com aguda ironia. 
       Ironia e irreverncia tambm marcaram sua carreira pblica. Inquieto e avesso s normas sociais vigente, no hesitou mesmo em transgredir leis, como quando 
respondeu processo por ter libertado todos os prisioneiros de uma cadeia pblica em Catalo (Gois), abarrotada de presos por infraes leves. Uma vida bomia e 
inadequada aos padres da poca lhe proporcionaram constantes deslocamentos: inicia sua carreira na magistratura em 1852, como juiz municipal em Catalo; entre 1858 
e 1860, reside na Corte, onde trabalhou como jornalista e crtico literrio do jornal A Actualidade. Em 1861, volta a Catalo como juiz municipal; entre 1864 j 
est de volta ao Rio de Janeiro, de onde retorna para Ouro Preto, onde se casa em 1867 com Teresa Maria Gomes e leciona no Liceu Mineiro por pouco tempo, por ter 
sua cadeira extinta; o mesmo ocorreria em Queluz (MG), em 1873. A partir da dcada de 70, estabelece-se definitivamente em Ouro Preto e dedica-se quase que integralmente 
s atividades de romancista, iniciadas em 1869, com a publicao de O Ermito do Muqum,  que lhe dariam o prestgio literrio. Falece a 10 de maro de 1896, deixando 
incabada a Histria de Minas Gerais, projeto a ele confiado pelo governo da ento provncia de Minas Gerais. Em 1904, sua esposa, com o auxlio de Afonso Celso, 
compila as anotaes deixadas por Bernardo Guimares e publica  O Bandido do Rio das Mortes, continuidade de Maurcio (1877).

ASSOCIAO ACERVOS LITERRIOS
EM APOIO AO CELLB/UFOP

ESTE PROJETO CONTOU COM O APOIO DO CNPq. 
1 Anfitrite: ninfa filha de Dris e Nereu. Para  para no se casar com Netuno, escondeu-se dele, mas foi encontrada por um delfim, ao p do Monte Atlas. Por finalmente 
aceit-lo como esposo teve como recompensa ser colocada entre os astros. Anfitrite  representada passando pelo mar sobre uma concha puxada por delfins ou cavalos-marinhos. 
2 sis: da mitologia egpcia, a deusa protetora da famlia e da fertilidade; a ela era dedicada a dana do ventre. Teria sido esposa de Osris, deus do mundo inferior 
e quarto rei do Egito. Quanto este partiu para espalhar o conhecimento sobre o mundo, sis teria assumido o trono egpcio. Tambm  considerada inciadora da Alma 
nos mistrios do Esprito, a partir de concepes mais esotricas. No encontramos qualquer referncia a uma possvel concha relacionada  personagem. 
         Como no tivemos acesso  edio definitiva da obra, a meno a sis pode ser simplesmente um erro tipogrfico, e B. G. estar se referindo a ris, mensageira 
dos deuses, representada como uma graciosa donzela alada, em cujas asas brilhagem todas as cores. Assim, a "concha" pode ser uma referncia ao arco-ris, assinalado 
pelos poetas como o p da deusa. 
3 Camalote: ilha flutuante que desce os rios, formada de plantas aquticas. 
4 Possivelmente Bernardo Guimares compara Caluta a Lucrcia por seu poder de seduo. 
5 Catadupa: queda de grande poro de gua.

6 Baguau: o mesmo que babau, uma espcie de palmeira, bastante comum na regio. 
7 Bolus: aos trambolhes. 
8 Tabocais: taquarais.
9 Na obra de Bernardo Guimares, "canibalismo" no significa necessariamente antropofagia; refere-se, no mais das vezes, a cenas de carnificina e butalidade.
10 Coivara: troncos de rvores derrubadas pelas cheias e que descem rio abaixo. 
11 Restilo: cachaa.
12 Cuit: cuia.
13 Mombeca (capim): no dicionarizado.
14 Caborge, caborgeiro:
* Disseram-me, h anos, que um grande rochedo da catarata tinha desabado, alterando consideravelmente sua forma primitiva. Ser pena que tenha desaparecido a curiosa 
gruta. (Nota de B.G.)
15 Manguala: mangual; dispositivo de metal fixado ao p do pau de surriola , e por meio do qual este se prende ao cachimbo, fixando ao costado da embarcao
16 Espadana
17 Pacau: antigo jogo de cartas.
??

??

??

??




2
